Ontem,
05 de maio, estive na Feira Flamenca produzida pelas minhas queridas parceiras
da Kabal. O evento está cada vez mais “profissa”: fiquei impressionada com o
crescimento do comércio de roupas e afins. Acho que a maior qualidade do evento
é a comunhão em si, ver tanta gente de grupos diferentes ali conversando,
trocando idéias, trabalhos. Parabéns à organização e parabéns aos que
participaram do evento, pois estão buscando uma integração importante pro
crescimento da própria arte.
Essa
integração inclusive foi um dos assuntos da mesa de debates que participei que
tinha como tema a Ética no Flamenco e que acabou reafirmando a necessidade de
maior integração entre a categoria “flamenca”.
Mas
meu objetivo aqui não é falar da Feira nem da integração, e sim mostrar minha
indignação quanto ao flamenco que assisti ontem. Antes de destilar minha
crítica devo confessar que sou uma flamenca frustrada no sentido de ter
dedicado vários anos da minha vida a essa arte, refletindo sobre ela,
estudando, pesquisando e propondo caminhos, e ver ao final de tantos anos
quanto o flamenco perdeu em qualidade e principalmente em criatividade.
Não
entendo realmente, e sou amante dessa arte, como as pessoas conseguem ficar
tantos anos fazendo a mesmíssima coisa!!!
É o
flamenco que não muda ou são as pessoas que congelam ele?
Percebo
que as pessoas que dançam flamenco estão totalmente despreparadas para o que
fazem, seja pela falta de consciência corporal, pela falta de consciência
cênica, de expressão, de energia, assim como pela falta de noção da própria arte
flamenca.
Flamenco não é repetição.
Flamenco
não é coreografia para simples reprodução. Flamenco
é uma forma de ver o mundo e expressá-lo. Quando uma Rocio Molina aparece
de calcinha e sutiã dançando flamenco ela não está inventando moda de figurino,
nem mostrando as belas curvas; ela está discutindo seu mundo, propondo relações
com o mundo que vive. Não é na roupa que está sua criatividade (porque nunca ninguém
dançou assim vamos todos dançar de calcinha e sutiã), mas é na metáfora que propõe
usando a roupa. Precisa ser artista pra entender como se faz isso!! Flamenco
não é demonstração de passos feitos no ritmo!!! Acompanhados de cara
dramática......
Passar
o resto da vida dançando bailes de estruturas clássicas com vestidinhos de
flores e sair por bulerias é congelar o flamenco e congelar a si mesmo!!! Vocês
não se cansam? Eu estou de saco cheio de ver isso. “Ah mas são alunas”.... e
daí? Alunas de que?
A
estrutura de ensino do flamenco está uma tragédia!!! Ninguém renovou NADA. E não
é pra renovar só pra renovar, nada disso porque assim fica pior ainda. É renovar
porque o MUNDO mudou e como podemos expressar um mundo diferente do jeito que
expressávamos há 20 anos? As danças estão alienadas do mundo em que as
dançarinas vivem!!
Não
vou nem comentar a tentativa de representação teatral poética que fizeram nesse
dia pois me recuso; por que se metem a fazer algo que desconhecem totalmente?
O flamenco não é uma dança morta embora
estejam fazendo de tudo para assassiná-la.
Nossa
formação (a minha geração) em flamenco já era rasa, agora com todos os recursos
que as pessoas tem com a internet, a vinda constante de profissionais e etc, as
pessoas conseguem piorar o nível??? Que capacidade!!!
Ainda
que alguns professores conseguem manter o nível técnico mínimo; dá pra ver no
baile quem foi o professor.
Mas
se a pessoa que está dançando não relacionar sua dança com sua vida, vira zumbi
dançando flamenco morto. Onde o flamenco pretende chegar? Alguém se perguntou?
Há 20
anos atrás, não tinha internet, dançar flamenco era ir pra Argentina aprender
algum baile, gravar em fita K7, e passar um ano dançando aquilo até ir pra Argentina
no ano seguinte, ou dali 2 anos pra Espanha, e aprender outro baile. Aos poucos
aquela geração começou a criar suas células de movimentos, uma letra aqui, uma
chamada ali, os músicos arriscando falsetas. E depois de muitas idas e vindas
pra Argentina e Espanha, trazendo raramente profissionais que tinham paciência
com nossa brasilidade, a princípio argentinos e depois maestros como La China,
é que aos poucos essa geração começou a ter condições mínimas para criar seus
próprios bailes sem fazer tremer nos caixões os antepassados do flamenco (se é
que não tremeram).
Os
anos se passaram e o mundo mudou muito. Todos tem acesso a tudo. Bailarino
espanhol implora vir ganhar dinheiro no Brasil e as dificuldades diminuíram muito.
E como tudo tem dois lados, assim como algumas coisas ficaram melhores outras
pioraram bastante.
Com tanta
informação era lógico que a qualidade técnica melhorasse, mas não aconteceu
porque com tanta informação agora todo mundo dança qualquer coisa sem critério.
Pra repetir passos não precisa realmente pagar uma professora duas vezes por
semana, é só ligar o Youtube, sai mais barato!
Com a
globalização era lógico que o estudante de flamenco ou profissional adquirisse
conhecimentos mais diversificados, de outras danças, outras linguagens,
informação sobre corpo, fisiologia, enfim, etc, etc, etc.
Mas
as aulinhas de flamenco continuam as mesmas?
Esse
dias fui na escola do meu filho, ensino fundamental e vi que uma aula de
historia não tem mais um professor falando, escrevendo na lousa ou lendo o
livro didático; o cara abaixa um telão e com seu laptop ele abre vídeos do Youtube pra explicar a
pré-história; anota as informações do aluno no ipad dele que calcula os pontos
do trabalho, da prova, da participação... e meu filho faz lição no Google,
trabalho em grupo pelo facebook, ou vê via satélite no Google maps o que é uma
estepe, savana ou floresta tropical, para aula de geografia!!!!
Isso
é só um exemplo de como um professor dessa área foi obrigado a mudar sua
linguagem para dar uma aula “pré-historica”, e o quanto de recursos pode ter
para que o conteúdo seja assimilado de outras formas!!!!!!!!!!
Voltando
para aulinhas de flamenco: não há como estabelecer novas formas de relacionar
sua dança com sua vida se isso não começar pela sala de aula, por como vc TROCA
o conteúdo com seu aluno. Ficar diante do espelho passando bailes sempre, só
mudando o baile é ter morrido e esquecido de deitar!!! E olha que nem estou
discutindo a partir dos novos conceitos da didática que discute que o ensino
deve ser uma troca de saberes e portanto o flamenco deveria ser resgatado e não
ensinado..... mas vamos pular essa parte por enquanto.
É
fundamental relacionar-se com o mundo. Precisa passar bailes do Youtube na aula
para se modernizar? NÃO. Sim e não. Passar bailes do Youtube na aula ou
indicá-los para os alunos é o MÍNIMO indiscutível. Mas é preciso passar vídeos
do Youtube sobre tribos africanas do Zimbabue (chutei qualquer coisa) que fazem
rituais de acasalamento batendo os pés. É preciso mostrar danças indianas, cantos
judaicos, ritos de passagem indígenas... ouvir músicas de outras etnias
tentando marcar com as palmas seus ritmos... discutir dança contemporânea e
seus caminhos, ver Martha Graham, Pina Baush. Fazer aulas de consciência
corporal e ver vídeos sobre o funcionamento da coluna, dos pés, dos quadris....
um workshop de pranayama e discutir a respiração na dança, não só pra não
sufocar (flamenco adora dançar sufocado) mas também para integrar o movimento
ao espírito!!!!!!!!! Enfim, nosso mundo hoje não segue uma linearidade,
estabelecemos relações descontínuas, aos saltos, plurais.
Um
bailarino hoje tem que estar eletrizado por questões étnicas na dança; não é
mais foco de estudo o que aconteceu com os ciganos quando nasceu o flamenco.
Isso é “book one”. As questões se universalizaram. Enquanto vocês se preocupam
com o som do tacón na madeira, o Galván está dançando sobre uma chapa de
metal!! Por que? Alguém se perguntou por que ele mudou de chão? Não é um efeito
visual ou sonoro como a Eva faz dançando na chuva. Não. É uma discussão com sua
realidade, urbanidade. Ou dançar sobre areia.... Ele se sentou para pensar qual
é o novo chão do mundo moderno pra ele colocar no seu show? Talvez sim, talvez
não, tanto faz, ele está vivo e se
relacionando com o mundo externo e interno dele e, portanto CRIA a metáfora
intuitivamente. Como dançar uma seguiriya dentro de um caixão!!
Insisto:
entrar numa sala, repetir bailes, diante do espelho está transformando
bailarinos flamencos em esteriotipos; daqui a pouco vão dançar o lago dos
cisnes por martinete!!! Tem a parte técnica que precisa ser repetida
incansavelmente sem invenção nenhuma? Claro. Mas estudar técnica hoje tem
muitos caminhos mais integrativos, holísticos.
Não
estou dando fórmulas ou soluções, dei alguns exemplos apenas porque as soluções
vão surgir de reflexões sinceras, da destruição de padrões de comportamento,
destruições doloridas, desapegos. As soluções nascem do medo, do ERRO, como já
discuti em outra oportunidade. E aqui não me refiro só aos bailarinos mas aos
músicos também. Não só ao trabalho como professores, mas como profissionais. A
todos nós que pensamos e fazemos flamenco.
Não
finjam que é assim porque o aluno iniciante precisa disso. É assim porque
poucos entre os profissionais de flamenco no Brasil são artistas, famintos,
expressivos e competentes. Olhe para seus alunos dançando e SE responda: você tem orgulho do que estão fazendo? Sem dar desconto porque são iniciantes: tem orgulho? Olhe para seus alunos avançados, neles está você, seu trabalho. Compare para crescer, não para disputar. Busque novas informações, crie grupos de estudos, não transforme seu trabalho com flamenco apenas num "ganha pão". E se quiser que seja só isso então só deixe suas alunas dançarem para o papai, a mamãe e o namorado. Não precisa ser profissional para fazer um bom trabalho com flamenco, com decoração ou vendendo pregos!!! Precisa levantar do caixão e voltar a viver!
Perdóname.