quinta-feira, 8 de março de 2012

DIZIMO: pedágio no caminho de DEUS





Não tem nada que deixa o ser humano mais confuso do que religião, no intuito de esclarecer sobre o sentido das coisas, deixa as coisas sem sentido nenhum. Não tem. E quanto mais nova for a dita cuja, mais confusa parece. As bem antigas ainda preservam uma lógica melhor estruturada para sustentar seus conceitos e pré-conceitos, mas as religiões judaico-cristãs são de deixar os cabelos em pé. A confusão que os criadores do cristianismo fizeram nos conceitos judaicos, já muito contraditórios, gerou praticamente uma palhaçada.

Não existe nada mais contraditório, no pior sentido do termo, do que as religiões pós Cristo, com todas suas derivações, até os dias de hoje com essa multiplicidade de salinhas cheias de cadeiras de plástico e pessoas com microfones gritando trechos bíblicos e dando explicações estapafúrdias sobre esses mesmos trechos, tudo pra poder passar o chapéu depois.... na verdade, mudou muito pouco parece, a não ser pelo microfone e as cadeiras de plástico, e pelo chapéu que agora é maquininha de cartão de crédito, mas a prática é antiga; até mais antiga que a própria cristandade.

Seria pertinente fazer uma lista de todos os aspectos “indignatórios” das condutas religiosas em geral, e em particular das condutas religiosas “em nome de Jesus”; não para tirar do foco crítico de todas as outras religiões, de forma nenhuma, mas porque as “em nome de Jesus” estão mais próximas e acessíveis, inclusive devido ao controle midiático que vem adquirindo; e também porque se abre uma portinha dessas salinhas em cada esquina todo dia. Aliás, é bem curioso aproveitar que a figura emblema, no caso Jesus, andou quebrando uns templos em revolta contra a arrogância de suas riquezas e justificar que qualquer lugar é apropriado para um encontro religioso; assim, diferente da montanha na qual o Cristo fez seu belo Sermão, qualquer garagem é passível de ambientar o gritado contato religioso. Que bom. E se mais tarde o ardor da fé crescer e nos tornarmos muitos e passarmos para grandes galpões, e depois comprarmos prédios teatrais sem incentivo cultural para virar igreja e no ápice de nossa conquista construirmos templos que custam R$ 10 milhões, tudo bem.

Ou: ainda bem que Cristo já foi crucificado, pois ele podia ficar invocado com o tamanho da coisa e sair quebrando tudo de novo..... ufa!!!

Como a pretendida listinha de indignação é quase infinita, será feita uma seleção (nossa que difícil escolher o que confunde mais); vamos tentar.

Sem hierarquia na escolha vamos pensar sobre o DIZIMO.
(Antigamente quando a gente queria refletir sobre um conceito começava abrindo o dicionário para partir da etimologia da palavra. Hoje em dia a gente “dá um Google”, colhe umas primeiras informações no Wikipédia e depois tem a liberdade de ler qualquer coisa; aliás o maravilhoso é poder encontrar os prós e contras, os conceitos e pré-conceitos, as verdades e as mentiras, os achismos pra todo lado.... a realidade é múltipla!!!)

Obviamente os dízimos têm o objetivo de colaborar no sustento do templo ou do sacerdócio de determinada religião. Não dá pra generalizar muito, pois existem divergências sobre o assunto, mas o fato é sempre o mesmo: como é que faz pra manter materialmente a vida espiritual?????? Tem um exemplo extremo que estabelece que para se dedicar à vida espiritual tem que abdicar da material e passar a fazer um jejum de tudo, consumindo o mínimo necessário pra ficar em pé, quer dizer, sentado com braço esticado pra pedir esmola. E tem o exemplo do extremo oposto que estabelece templos feitos em ouro, construídos com o sangue de escravos, para dar “valor” à representação e espaço de oferendas à divindade.

Na cultura ocidental, judaica e cristã, vimos a formação de uma cúpula de poder, teoricamente designada pela divindade máxima e devotada ao serviço, que reuniu um tesouro secularmente considerável. A reunião dessa riqueza não se deu só por vontade da população fiel, mas sob tortura, apropriação indevida e etc, etc, etc.

Os conceitos humanos amadureceram e as classes de explorados “reivindicou” algumas mudanças nas distribuições, não tanto das propriedades, mas ainda dos direitos: leis foram criadas e a “festa” da apropriação indevida ficou um pouquinho mais restrita. Com o passar do tempo, guardadas as devidas proporções e considerados os limites das leis que tentam proteger os explorados, a apropriação indevida de antes hoje se chama DÍZIMO.

Conclusão um pouco forçada? Tomara, pois o objetivo é forçar a barra!!!

Antes ainda insistimos em refletir: como podemos fazer para tornar materialmente viável uma atividade religiosa já que deveria, POR NATUREZA, não ser de cunho comercial?

Existem diversas respostas sendo aplicadas a essa pergunta, algumas estão funcionando outras também... porém algumas funcionam para todos os participantes e outras funcionam bem só para alguns. Os velhos probleminhas da distribuição de renda que ainda não solucionamos nos âmbitos sociais, tomam conta dos agrupamentos religiosos: poucos com muito e muitos com pouco, dando o que lhes falta para aqueles que tem sobrando.... uma matemática que a gente já conhece bem. E haja livro de auto ajuda pra socorrer esses que estão sem nada pra ensinar COMO se tornarem os poucos prósperos.... ensinar o impossível que é: muitos serem poucos!! Bom enfim, tem gente cheia da grana e no poder, e gente sem grana nenhuma trabalhando feito camelo e dando uma porcentagem do NADA que ganha para colaborar no sustento da sua igreja.

Falando em camelos, deve ter muito camelo passando em buraco de agulha, pois se antes o céu não era permitido para os ricos, agora eles estão comprando camarote por lá.

Adendo 1 sobre a porcentagem: encontramos nos livros de educação financeira a principal orientação para enriquecer que é aplicar 10% do seu ganho mensal, não importa o quanto seja esse valor. Nos referidos livros o objetivo é o enriquecimento daquele que ganha e aplica seu dinheiro, e por enriquecimento define-se o poder de realizar alguns sonhos materiais da PRÓPRIA pessoa.

Adendo 2 sobre a porcentagem: encontramos em diferentes orientações religiosas e de cunho espiritual que para adquirir bênçãos ou atrair milagres em sua vida é fundamental doar 10% do seu ganho mensal, não importa o quanto seja esse valor, porque é dando que se recebe e compartilhar é a regra principal para receber. Neste caso quem enriquece não é quem ganha e doa, e por enriquecimentos define-se o poder de realizar muitos sonhos materiais de quem recebe a doação.

Não é de se duvidar que haja extrema alegria no fiel que doa parte do seu esforço/sacrifício para a igreja/templo que representa o eixo de vitalidade em sua vida, que concentra o sentido conceitual da sua existência. É sublime e restabelecedor poder participar concretamente de uma obra que tem significado central em sua vida. Não há dúvida nesse sentimento de fé e realização. Essa ideia de que o sacrifício fortalece o pacto entre a pessoa e a divindade é arquetípica e a força desse arquétipo é central na própria religião. Afinal de contas é o SANGUE de Jesus que tem poder, sua parte que foi derramada em sacrifício. Que bom que pudemos trocar a doação de nosso sangue pela doação de algumas moedas... apesar que essas moedas são para a grande maioria o próprio sangue. E os pactos sanguíneos são encontrados em diferentes religiões em todos os tempos.

E então se confundem 2 objetivos diferentes:

*      por um lado o dízimo, essa doação, pretende dar suporte material para que a obra religiosa possa ter continuidade pois afinal NADA em nosso mundo é de graça, nem uma medalhinha de Nossa Senhora!!!

*      por outro lado, para tornar essa doação uma obrigação, apesar de estarem tentando transformar em imposto obrigatório, o argumento que torna o dízimo uma vontade constante do fiel é a crença de que aquele valor trará benefícios particulares ao doador. Nesse segundo caso, aquele que doa não está tão interessado em manter a igreja aberta senão para manter aberto o seu veículo de comunicação com o Supremo.

Daí concluímos que:

1. O fiel não consegue acessar o plano superior sem o auxílio dos templos, sacerdotes, rituais e dízimos, fundamento contra o qual o próprio Jesus de Nazaré se contrapôs e esse foi um dos sentidos principais da sua atitude revolucionária;

2. O fiel não está nem um pouco preocupado com a humanidade em geral, com o enriquecimento coletivo ou seu desenvolvimento espiritual, o que ele pretende é obter milagres e benefícios para si mesmo; se estiver doente ou com parentes doentes pede saúde, desempregado pede emprego, viciado pede cura, solteira pede marido e TODOS pedem dinheiro.

De qualquer forma o tempo todo está se afirmando para o fiel que:

*      ele sozinho não pode contatar a divindade;
*      ele precisa mostrar/provar com dinheiro sua vontade de prosperar;
*      é necessário ir até um “lugar” para orar;
*      a divindade dá mais milagres para quem oferece valores mais altos;
*      ele não é nada diante da divindade;
*      se ele não prosperou é porque ainda não mereceu;
*      quanto maior e mais linda nossa igreja/templo mais feliz ficará a divindade com nosso esforço;
*      “sangue de Jesus” só tem poder através do pastor/sacerdote;
*      etc;
*      etc;
*      etc;

Enfim, o DIZIMO parece ser aquele tipo de pedágio que vc é obrigado a pagar pra seguir pela estrada enquanto na lei está escrito que temos o direito de ir e vir.

Comparações estapafúrdias à parte, tudo na nossa vida custa dinheiro, nossas necessidades/direitos mais básicos como comer, morar, conhecer, se curar, se divertir.... e não bastasse, pagamos pedágio no caminho de Deus...

Até aqui já explicitamos o quão confuso é o mundo religioso, sem sequer termos adentrado em questões do Espírito. A parte do desenvolvimento espiritual fica meio em segundo plano, pois afinal de contas a única coisa que se pode fazer em grupo é a leitura dos textos religiosos, as orações, cantos e rituais, já que o desenvolvimento em si é absolutamente individual e pessoal; não há regras para que aconteça e não se estabelece através de valores materiais.

Então, pra que pagar o pedágio se o caminho pra DEUS seguimos sozinhos, nus, no silêncio?




César e Pedro Mariano em SE EU QUISER FALAR COM DEUS




quarta-feira, 7 de março de 2012

O FLAMENCO NASCE DO ERRO

"quise trabajar sobre el error, para poder equivocarme"

ROCIO MOLINA em "Cuando las Piedras Vuelen"


Uma moça jovem numa arte carregada de ancestrais. Inovar no flamenco é quase um suicídio profissional, mas de quando em quando aparecem almas antigas em corpos novos para perturbar os que estão acomodados e tremer os pilares estabelecidos das convenções. Esse é o fogo flamenco: a rebeldia.

Israel Galván, Rocio Molina são dois exemplos dignos dessa responsabilidade. Resgatam para o flamenco sua profunda essência da improvisação, do inesperado. Não dessa improvisação empoeirada, pré-formatada que enterra o frescor da alma flamenca, não. Resgatam e renovam o sentido do duende lorquiano, aquele fogo invisível que se apodera do ser e o finca violentamente no momento presente. Não há passado e nem futuro para o momento flamenco e este é o sentido supremo da improvisação. Não há regras da ancestralidade que se sobreponham ao artista que sente. A ancestralidade não vem pelo sangue, não vem pela forma, só pode ser resgatada pela alma somada à inteligência.

A improvisação não é um jogo artificioso de estruturas pré-estabelecidas que são escolhidas de pronto pelo artista. A improvisação é muito mais do que isso: é o mergulho no vazio, onde as estruturas são esquecidas completamente para que ressurjam inesperadamente solicitadas pelo desespero da alma buscando expressão, pela sagacidade da inteligência buscando caminhos que resgatem à luz. No vazio de si mesmo, no vazio do próprio flamenco. Quem escolhe, quem cria, não é a mente do artista que ali atua apenas para lapidar o fluxo que jorra. A obra se cria através do artista, mas apenas naquele que aceita e compreende o sentido da CRIAÇÃO.

Criar é errar sempre porque é morrer.

Nosso conceito de criação é fruto de uma ideologia monoteísta e maniqueísta. Em nosso conceito de criação há o certo e o errado e o certo é bom e o errado ruim. O certo prevalece e é determinado por algum tipo de PODER. Mas a arte é por essência subversiva e quando se submete ao poder perde sua luz, desfalece suas forças. O falso artista, busca acertar porque caminha focado no resultado, no entretenimento; ou foca no interior e projeta sua fantasia. O artista criador foca nos dois mundos ao mesmo tempo, pois só assim se torna presente, e só quando consegue se colocar nesse “meio” dos mundos, que é o tempo presente, tem acesso ao inefável, ao inconsciente. Nesse “lugar” não há certezas, o belo é torto, a verdade está na morte, o caminho não existe antes dos pés.

A arte nasce do erro e no flamenco não é diferente: sua temática é o erro humano, nossas desmedidas, nossas deformidades. Não haveria cante flamenco num coro de anjos porque é uma arte humana essencialmente. E como podemos querê-la controlada se ela vibra no descontrole da alma rebelde? Como podemos querê-la simétrica se expressa as diferenças? Perseguir modelos não é criar, é, no máximo, representar. O flamenco não permite representação. Nenhuma arte permite, mas o flamenco se fez dessa transparência, dessa autenticidade.

O nosso flamenco tornou-se repetitivo e morto. O saudosismo de um tempo remoto dos grandes artistas paralisou o movimento natural autofágico que qualquer arte deve manter. Formas estabelecidas e reproduzidas, cansativas e de tão tediosas ficamos fascinados pela virtuose. Quando a arte se esvazia aplaudimos a superação do humano em performances de velocidade e contorcionismo como se flamenco fosse atletismo; atletismo da musculatura, atletismo da criatividade, atletismo do afeto...

A expressividade no flamenco tem que mudar para que sua essência continue florescendo. Os puristas se agarram às formas para manter as essências e isso não funciona. Esses novos flamencos agarram-se às suas inquietudes.

Uma geração de tentativas de mudança, da criação de novos caminhos deu as caras, nos estimulou, mas logo se perdeu nas próprias fantasias. Há que ter coragem para ser artista, mas há que ter muita coragem para ser flamenco. A coragem da pesquisa, a coragem de morrer sinceramente e não tentar mudar mantendo o status quo. Nem sempre é possível, mas é necessário.

A coragem de ser simplesmente quem se é realmente.


Linda entrevista com Rocio Molina: Rocio Molina


Ecad cobra taxa mensal de blogs que utilizam vídeos do YouTube

A internet é um projeto melhor do que todos os gênios de todos os tempos puderam imaginar. Apesar de seu desenvolvimento até ter sido vislumbrado, ninguém poderia supor o alcance revolucionário sobre a mente e comportamento humanos. TODOS nossos conceitos estão sendo derrubados pelos mistérios da REDE numa mais linda queda que a do muro de Berlim.



Novas fronteiras estão sendo estabelecidas, nossas formas de relacionamento, sexo, consumo, pensamento, a amplitude de nossa comunicação, até as barreiras do tempo e do espaço estão sendo re-configuradas e numa velocidade incontrolável. Como numa queda de dominó a avalanche de mudanças foi desencadeada e nada poderá segurá-la até que encontre um novo ponto de equilíbrio, ou seja, tenha derrubado TUDO. Estamos realmente no fim do mundo.

As noções de direitos, de limites estão confusas; o que na vida não virtual (que já não podemos chamar de real), parecia bem definido, ou regido por regras, na vida virtual as leis não se adaptaram.
De onde o ECAD tirou a idéia de cobrar direitos sobre vídeos de youtube? Não é difícil compreender, pois esse tipo de órgão de defesa dos direitos AUTORAIS está fadado a morrer; o conceito de AUTORAL não vai sobreviver nem que toda a humanidade junta quisesse isso. Impossível.

CAIU NA REDE É PEIXE, não tem como imaginar limites, condutas, e éticas para um mundo sem limites, sem matéria, sem regras. Não é possível adaptar nossa visão de mundo ao conceito virtual. Não é uma questão de adaptação. Não basta fazer o backup dos arquivos de conduta, reformatar o HD da existência e querer reinstalar os mesmos programas..... esse comportamento ainda funcionou enquanto estávamos numa fase da era informatizada em que a REDE não estava totalmente estabelecida. Agora acabou!!! Até o conceito de guerra se modificou e em pouquíssimo tempo a noção de dinheiro/moeda já terá desaparecido.

Para o ECAD não há alternativa a não ser TENTAR inventar um jeito de sobreviver por mais alguns instantes, como um pedaço de papel girando na água que desce pelo ralo, esse tipo de organização falida ainda vai tentar criar alguma forma de sobreviver agarrando-se às bordas do que encontrar, ao invés de tentar tornar-se mais leve, ágil, inteligente para flutuar nas águas dos novos comportamentos. E em pouco tempo vai se enforcar na própria linha, é óbvio.

A luta purista dos direitos autorais dentro do mundo da pornografia cibernética vai persistir por algum tempo aproveitando o intervalo inevitável entre o velho e o novo. No futuro só será AUTOR quem for ATOR e a obra só terá CRIADOR no momento da fecundação, exatamente como é o Universo. O Supremo autor dos mundos não reclama direitos autorais porque apenas gera incessantemente, sabendo que sua criação morre no momento em que nasce. Ele cria e desapega porque não Se interessa em TER, POSSUIR o que gerou.



MAD MAX 2012


Quem não se lembra da saga MAD MAX, que imaginava para nosso futuro um mundo de barbárie em torno do combustível?


Hoje Sampa ficou estressada com o impasse entre Kassab e os caminhoneiros. O pior de tudo sempre é que as consequências recaem sobre a sociedade; e tem que recair mesmo, pelo menos esse seria um jeito de comprometer a todos nas decisões sobre nossa cidade. Mas o fato é que todo mundo se estressa e nada se resolve decentemente porque os interesses escusos tem mais força do que as necessidades coletivas.


Nesse cabo de guerra que nunca ninguém sabe direito quem tá puxando pra que lado já que os verdadeiros interesses ficam velados, vêm à tona as faltas: a falta de caráter e a falta de solidariedade.


Além da falta de combustível.


Ao invés da sociedade se unir em atitudes colaborativas diante de um problema, ao contrário, cada um inventa um jeito de se aproveitar da situação e puxar a sardinha pra si mesmo.




A começar pelos postos de gasolina que subiram o preço indiscriminadamente aproveitando que vários concorrentes já não tinham o produto para oferecer. A velha historia da oferta e da procura dando alimento para o nosso sistema capitalista. Teve posto que afirmou não ter gasolina comum para vender a aditivada pelo preço que quis. E todo mundo saiu de casa correndo pra encher o tanque a qualquer custo, até pelo dobro do preço comum.

Além do prejuízo financeiro causado pela sociedade a si mesma, ainda foram direcionados grupos policiais para fazerem a escolta dos caminhões que não aderiram à greve.



Contra quem estamos brigando? De quem estamos nos defendendo? Não somos nós a sociedade? Por que no momento de dificuldade ao invés de nos juntarmos, nós nos separamos e tentamos nos "dar melhor" em prejuízo de alguém? Ou apenas nos preocupamos com nossas necessidades?

Essa perguntas servem para todos nós, governadores, caminhoneiros, motoristas, comerciantes, usuários de ônibus, taxistas, e qualquer um que precise de combustível para seu dia a dia. Se diante da dificuldade não tivermos uma postura solidária, nosso futuro não vai ser diferente da ficção.



VAMOS IMAGINAR
UM OUTRO FUTURO PARA NÓS??



conheça o Crie Futuros: http://criefuturos.com/


NIETZSCHE



Num certo canto remoto do universo cintilante vertido em incontáveis sistemas solares havia uma vez um astro onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e hipócrita da «história mundial», mas foi apenas um minuto. Depois de a natureza ter respirado umas poucas vezes, o astro enregelou congelou e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim, alguém poderia inventar uma fábula como esta e, no entanto, não ficaria suficientemente esclarecido quão lastimável, quão obscuro e fugidio, quão desprovido de finalidade e arbitrário se apresenta o intelecto humano no interior da natureza. Eternidades houve em que ele não existia; quando ele tiver de novo desaparecido, nada se terá alterado. Pois para este intelecto não há outra missão que transcenda a vida humana. Antes pelo contrário ele é humano, e só o seu dono e progenitor o encara tão pateticamente como se ele fosse o eixo à volta do qual gira o mundo. Mas se nós conseguíssemos comunicar com um mosquito, saberíamos que também ele paira neste ambiente com a mesma presunção e se sente como centro voador deste mundo. Na natureza não há nada de tão censurável e limitado que não se inchasse qual tubo insuflável por meio de um pequeno sopro dessa força do conhecimento; e tal como todo e qualquer carregador ambiciona ter o seu admirador, assim o homem mais orgulhoso, o filósofo, julga ver de todos os lados os olhares do universo, quais telescópios dirigidos para o seu agir e pensar.

É estranho que o intelecto seja capaz disso, ele que é acrescentado apenas como auxiliar aos seres mais infelizes, mais delicados e efêmeros para os sustentar durante um minuto na existência, da qual, sem este contributo, eles teriam toda a razão de fugir como o filho de Lessing. O orgulho ligado ao conhecer e sentir que põe uma névoa ofuscante nos olhos e sentidos dos homens engana-os por conseguinte sobre o valor da existência pelo fato de encerrar em si o apreço mais lisonjeiro acerca do conhecimento. O seu efeito mais geral é a ilusão, mas também os efeitos mais particulares contêm em si algo de índole semelhante.

O intelecto, como meio para a conservação do indivíduo, desenvolve as suas forças dominantes na dissimulação, pois este é o meio graças ao qual os indivíduos mais fracos, os menos robustos, se conservam e aos quais está vedado lutar pela existência com o auxílio de chifres ou de dentes afiados das feras. No homem, esta arte da dissimulação atinge o seu ponto mais alto; nele a ilusão, a lisonja, a mentira e a fraude, o falar nas costas dos outros, o representar, o viver no brilho emprestado, o usar uma máscara, a convenção que oculta, o jogo de cena diante dos outros e de si próprio, numa palavra, o esvoaçar constante em torno dessa chama única, a vaidade, são de tal modo a regra e a lei que não há quase nada mais inconcebível do que o aparecimento nos homens de um impulso honesto e puro para a verdade. Estes estão profundamente submergidos em ilusões e visões oníricas, o seu olhar só desliza pela superfície das coisas e vê aí (aproximando-se dos filhos) «formas», a sua percepção não conduz em parte alguma à verdade mas satisfaz-se com receber estímulos e, por assim dizer, com um jogo tateando a custo das coisas. Além disso, de noite o homem deixa-se, durante uma vida inteira, enganar em sonhos, sem que o seu sentimento moral jamais procure evitá-lo, ao passo " que parece haver homens que deixaram de ressonar pela simples força de vontade. Que é que o homem no fundo sabe acerca de si mesmo? Sim, se ele conseguisse ao menos uma vez percepcionar-se perceber-se completamente como se estivesse metido num expositor de vidro iluminado! Não é que a natureza lhe oculta a maior parte das coisas, mesmo sobre o seu corpo, para banir e fixá-lo longe das dobras intestinais, longe do rápido fluir da corrente sanguínea e dos estremecimentos emaranhados das fibras, numa consciência orgulhosa e malabarista! A natureza deitou fora a chave e ai da fatídica curiosidade que conseguisse, através de uma fenda, olhar para fora e para baixo da câmara da consciência e que agora pressentia que o homem assenta no impiedoso, no sôfrego, no insaciável, no homicida, na indiferença do seu não saber e como que suspenso em sonhos preso nas costas de um tigre. De onde, com os diabos, vem nesta constelação o impulso da verdade?


Na medida em que o indivíduo se quer conservar relativamente aos outros indivíduos, este, na maior parte das vezes, utiliza o intelecto num estado natural das coisas, somente para a dissimulação; mas, como o homem quer existir tanto por necessidade como por tédio, socialmente e em rebanho, precisa de fazer a paz e aspira a que desapareça do seu mundo pelo menos o mais brutal BELLUM OMNIUM CONTRA OMNES. Esta paz traz consigo algo que se parece com o primeiro passo para a obtenção daquele enigmático impulso para a verdade. Acontece que agora é fixado aquilo que doravante deve ser a «verdade», ou seja, é inventada uma designação das coisas tão válida como vinculativa e a legislação da língua produz também as primeiras leis da verdade, pois aqui surge pela primeira vez o contraste entre verdade e mentira. O mentiroso utiliza as designações válidas, as palavras, para fazer com que o irreal pareça real. Ele diz, por exemplo, «Sou rico», quando a designação correta para a sua situação seria precisamente a palavra «pobre». Faz mau uso das convenções estabelecidas através de trocas arbitrárias ou até inversões dos nomes, feitas a seu bel-prazer. Se ele atuar desta maneira em proveito próprio e prejuízo dos outros, então a sociedade perderá a confiança que nele depositava e exclui-lo-á por isso. Os homens neste caso fogem não tanto de ser enganados, mas mais de ser prejudicados pela fraude: a este nível, no fundo, eles não odeiam o engano, mas sim as conseqüências más e adversas de determinadas espécies de engano. É só num idêntico sentido restrito que o homem deseja a verdade: aspira às agradáveis conseqüências da verdade que conservam a vida, é indiferente ao puro conhecimento inconseqüente e é até avesso às verdades talvez prejudiciais e destruidoras. E, para, além disto, qual é a situação relativamente às convenções da língua? Serão elas talvez produtos do conhecimento, do sentido da verdade? Coincidirão as designações e as coisas? Será a língua a adequada expressão de todas as realidades?


Só mediante o processo do esquecimento pode o homem alguma vez chegar a presumir que possui uma verdade no grau que acabamos de assinalar. Se ele não quer satisfazer-se com a verdade sob a forma de tautologia, isto é, com invólucros vazios, então estará eternamente a receber ilusões como se fossem verdades.

Que é uma palavra? A representação sonora de um estímulo nervoso. Porém, deduzir a partir de um estímulo nervoso para uma causa que nos é exterior é já o resultado de uma incorreta e indevida aplicação do princípio de razão. Como poderíamos nós dizer, se na gênese da língua a verdade, o ponto de vista da certeza, tivessem sido os únicos decisivos nas designações, como poderíamos nós então dizer «A pedra é dura», como se conhecêssemos a palavra «dura» de outro modo que não apenas como estímulo completamente subjetivo! Dividimos as coisas em gêneros: dizemos que a árvore é feminina e o arbusto é masculino. Que transferências arbitrárias! Como foram ultrapassados os cânones da certeza! Falamos de «serpente»: a designação quer apenas dizer serpentear, mas podia também ser aplicada ao verme. Que delimitações arbitrárias, que preferências parciais, tão depressa desta como daquela particularidade de uma coisa!

Comparadas entre si as diferentes línguas mostram que nas palavras nunca é a verdade que importa, nem a expressão adequada: caso contrário, não existiriam tantas línguas. A «coisa em si» (que seria precisamente a verdade pura sem conseqüências) é também para o onomaturgo totalmente inapreensível, e mesmo nada desejável. Ele designa unicamente as relações das coisas com os homens e socorre-se para a sua expressão das mais ousadas metáforas. Uma estimulação nervosa traduzida numa imagem! Primeira metáfora. A imagem de novo transformada num som! Segunda metáfora. E de cada vez uma transposição completa de uma esfera para outra totalmente diversa e nova. Pode-se imaginar uma pessoa completamente surda e que nunca tenha tido uma sensação do som e da música: tal como ele se espanta com as figuras acústicas chladnianas na areia, encontra as suas causas na vibração das cordas e jurará com base nisso saber agora a que se chama «som», assim acontece com todos nós a respeito da linguagem. Julgamos saber algo das próprias coisas quando falamos de árvores, cores, neve e flores e, no entanto, não dispomos senão de metáforas das coisas que não correspondem de forma alguma às essencialidades primordiais. Tal como o som enquanto figura de areia, o enigmático X da coisa em si é tomado uma vez como estimulação nervosa, depois como imagem, finalmente como som. Em qualquer dos casos não existe lógica no surgimento da linguagem e a totalidade do material do qual e com o qual posteriormente o homem da verdade, o investigador, o filósofo trabalha e constrói, se não se trata de castelos no ar, não provêm tão-pouco da essência das coisas.

Pensemos ainda particularmente na formação dos conceitos? Cada palavra torna-se de imediato conceito por precisamente não dever servir para a experiência originária única e totalmente individualizada, à qual deve a sua emergência, algo como recordação, mas também para inumeráveis casos mais ou menos semelhantes, isto é, em rigor, nunca idênticos, portanto, que devem adequar-se a casos sempre diferentes. Todo o conceito emerge da igualização do não igual. Tão certo como uma folha nunca é completamente igual a uma outra, assim também o conceito de folha foi formado graças ao abandono dessas diferenças individuais por um esquecimento do elemento diferenciador e suscita então a representação, como se existisse na natureza, fora das folhas, algo que fosse «a folha», algo como uma forma originária, segundo a qual todas as folhas seriam tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas e pintadas mas por mão desajeitada, de tal maneira que nenhum exemplar tivesse sido executado de modo correto e fiável como a cópia fiel da forma originária.

Chamamos honesta a uma pessoa. Perguntamo-nos: «Porque atuou ela hoje de forma tão honesta?» A nossa resposta costuma ser: «Por causa da sua honestidade.» A honestidade! Isso significa de novo: a folha é a causa das folhas. Nada sabemos a respeito de uma qualidade essencial que se chamasse «a honestidade»; mas conhecemos inúmeras ações individualizadas e desiguais que nós, pelo não considerar o desigual, igualizamos e que agora designamos como ações honestas; por fim, formulamos a partir delas uma qualitas occulta com o nome «a honestidade». O descurar do individual e do real dá-nos o conceito, do mesmo modo que nos dá a forma, enquanto a natureza não conhece quaisquer formas e conceitos e, portanto, quaisquer gêneros, mas apenas um X para nós inacessível e indefinível. Portanto, também a nossa oposição entre indivíduo e gênero é antropomórfica e não provém da essência das coisas, embora não ousemos dizer que não lhe corresponda: o que seria uma afirmação dogmática e, como tal, tão indemonstrável como a sua contrária.

Que é então a verdade? Um exército móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canônicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal.

Continuamos sem saber de onde provém o impulso para a verdade; porque até agora apenas ouvimos falar da obrigação que a sociedade impõe para existir: ser verdadeiro, isto é, utilizar as metáforas usuais, portanto, expresso de uma maneira moral, da obrigação de mentir segundo uma convenção estabelecida, de mentir de um modo gregário, num estilo vinculativo para todos. Ora, é certo que o homem esquece que é isso que se passa com ele; ele mente do modo indicado, inconscientemente e segundo hábitos de séculos — e precisamente através dessa não consciência e através desse esquecimento ele atinge o sentimento da verdade. Deste sentimento de ser obrigado a designar uma coisa como «vermelha», uma outra como «fria», uma terceira como «muda», desperta uma inclinação moral relativa à verdade: a partir da oposição ao mentiroso em que ninguém confia, que todos excluem, o homem prova a si próprio o caráter digno, fiável e útil da verdade. Coloca agora o seu agir enquanto ser racional sob o domínio das abstrações; já não tolera ser arrastado por impressões súbitas, por intuições, ele generaliza todas essas impressões em conceitos descoloridos e mais frios de modo a ligar a eles o veículo da sua vida e do seu agir. Tudo o que distingue o homem do animal depende dessa faculdade de reduzir as metáforas intuitivas a um esquema e, portanto, de dissolver uma imagem num conceito. No domínio destes esquemas, é possível algo que nunca poderia ser conseguido sob as primeiras impressões; construir uma ordem em pirâmide segundo castas e graus, criar um novo mundo de leis, privilégios, de subordinações, delimitações, que agora se contrapõe ao mundo intuitivo das primeiras impressões, como sendo o mundo mais estável, mais geral, mais conhecido, mais humano e, como tal, como o mundo regulador e imperativo. Enquanto cada metáfora da intuição é individual e ímpar e, assim, sabe escapar a toda a classificação, o grande edifício dos conceitos mostra a regularidade estrita de um columbário romano e exala na lógica esse rigor e frieza próprios da matemática.

Quem for tocado por essa exalação fria mal acreditará que também o conceito, descarnado e octogonal como um dado e deslocável como este, apesar de tudo, é como o resíduo de uma metáfora e que a ilusão da transposição artística de uma estimulação nervosa em imagens é, se não a mãe, pelo menos a avó de todo o conceito. Neste jogo de dados dos conceitos, - chama-se porém «verdade» o utilizar cada dado tal como é designado, o contar rigorosamente os seus pontos, formar rubricas corretas e nunca subverter a ordem das castas e a seqüência das classes hierárquicas. Assim como os Romanos e os Etruscos dividiam o céu através de rígidas linhas matemáticas e num espaço de tal forma delimitado, como um templo, fixavam um deus, assim também cada povo tem sobre ele um céu de conceitos semelhantes e matematicamente dividido e, por exigência da verdade, compreende agora o fato de cada deus conceptual apenas dever ser procurado na sua esfera. Pode-se admirar aqui o homem como um imenso gênio construtor, o qual consegue, sobre fundações movediças e como sobre água corrente, a edificação de uma catedral de conceitos infinitamente complicada: na verdade, para encontrar apoio em tais fundações, é preciso que seja uma construção como se de uma teia de aranha se tratasse, tão delicada que possa ser levada pelas ondas, e tão sólida que não possa ser destruída pelo vento. Como gênio construtor o homem eleva-se deste modo muito acima da abelha: esta constrói com cera, que colhe da natureza, ele com uma bem mais delicada matéria, a dos conceitos que ele deve fabricar a partir de si mesmo. Há aqui, no homem, muito que admirar, mas não apenas pelo seu impulso para a verdade, para o puro conhecer das coisas. Se alguém esconde uma coisa por trás de um arbusto, nesse exato lugar a procura de novo e a encontra, nesse procurar e encontrar não há muito que enaltecer: no entanto, é isso que se passa com o procurar e encontrar da «verdade» no interior da razão. Quando dou a definição de mamífero e depois declaro, após observação de um camelo, «Eis um mamífero», deste modo, de fato, uma verdade é trazida à luz, mas é de valor limitado, quero dizer que ela é do princípio ao fim antropomórfica e que não contém um único ponto que seja «verdadeiro em si», real e universalmente válido, a não ser para o homem.

O investigador de tais verdades não procura no fundo senão a metamorfose do mundo no homem, ele luta por um compreender do mundo como coisa antropomórfica e consegue, no melhor dos casos, o sentimento de uma assimilação. De modo semelhante ao astrólogo que observa as estrelas ao serviço do homem e em conexão com a sua felicidade e sofrimento, um tal investigador considera o mundo inteiro como vinculado ao homem, como a ressonância infinitamente modulada de um som originário, o do homem, como a cópia múltiplas vezes reproduzida de uma imagem originária, a do homem. O seu procedimento é tomar o homem como medida de todas as coisas: desse modo, no entanto, ele parte do erro de acreditar que tem essas coisas imediatamente perante si, como puros objetos. Esquece pois as metáforas intuitivas originais enquanto metáforas e toma-as pelas próprias coisas.

Apenas por meio do esquecer desse mundo primitivo de metáforas, apenas por meio do endurecimento e da solidificação de um fluido originariamente incandescente, de uma torrente de imagens emergentes do poder originário da imaginação humana, apenas por meio da crença inabalável de que este sol, esta janela, esta mesa sejam uma verdade em si, numa palavra, apenas porque o homem se esquece de si enquanto sujeito, e enquanto sujeito criador e artista vive ele com algum descanso, segurança e coerência. Se ele pudesse sair por um instante apenas dos muros da prisão dessa crença desapareceria imediatamente a sua autoconfiança. Já lhe é penoso reconhecer como o insecto ou o pássaro percepcionam um mundo completamente diferente daquele que o homem percepciona, e que a questão quanto a saber qual das duas percepções do mundo é a mais correta é uma questão totalmente absurda, pois para ser respondida deveria já ser medida com o padrão da percepção correta, isto é, com um padrão que não existe. Em geral, porém, parece-me que a «percepção correcta» significaria: a expressão adequada de um objecto no sujeito — um absurdo cheio de contradições; porquanto entre duas esferas absolutamente distintas, como entre sujeito e objecto, não existe nenhuma causalidade, nenhuma correcção, nenhuma expressão, mas quando muito uma relação estética, ou seja, uma transposição aproximada, uma tradução que segue o original de forma balbuciante para uma língua totalmente desconhecida: para o que, em todo o caso, é necessária uma esfera intermediária e um poder intermediário livremente poético e inventivo. A palavra «aparência» é muito sedutora, por isso a evito o mais possível: é que não é verdade que a essência das coisas apareça no mundo empírico.

Um pintor a quem faltassem as mãos e que quisesse exprimir pelo canto a imagem que tem na mente, sempre revelaria mais coisas nessa permuta entre esferas do que o mundo empírico revela da essência das coisas. A própria relação entre um estímulo nervoso e a imagem produzida não é em si mesma necessária: se, porém, a mesma imagem for milhões de vezes produzida e legada através de várias gerações e que aparece ao conjunto da humanidade sempre na sequência do mesmo motivo, acaba por adquirir para o homem o mesmo significado como se este significado fosse a imagem única e necessária e como se essa relação entre o estímulo nervoso inicial e a imagem produzida fosse uma rigorosa relação de causalidade; tal como um sonho que, eternamente repetido, seria sentido inegavelmente como a realidade em absoluto. Mas o endurecimento e a solidificação de uma metáfora em nada garantem a necessidade e a justificação exclusiva dessa metáfora.

Qualquer pessoa versada em tais observações sentiu decerto uma profunda desconfiança perante todo e qualquer idealismo desse género e, sempre que se compenetrou com toda a clareza da permanente coerência, da omnipresença e da infalibilidade das leis da natureza, acabou por concluir o seguinte: aqui, ao penetrarmos fundo nas alturas do mundo telescópicos e na profundidade do mundo microscópico, é tudo extremamente seguro, elaborado, infinito e conforme às leis e sem lacunas! A ciência terá eternamente muito a escavar com êxito nesta mina, e todos os achados serão consonantes e não se contradirão. Como tudo isto se assemelha pouco a um produto da imaginação! Porque, se se assemelhasse, teria de deixar adivinhar, onde quer que fosse, o seu carácter de aparência e de não-realidade. A isto há a contrapor que, se cada um de nós tivesse ainda percepções sensoriais de tipo diferente, poderia percepcionar as sensações ora apenas como uma ave, ora como um verme, ora como uma planta, ou o mesmo estímulo seria visto por um de nós como vermelho e por outro de nós como azul, um terceiro poderia ouvir esse estímulo como um som, e assim ninguém falaria de uma tal conformidade às leis da natureza, antes conceberia esta apenas como uma construção extremamente subjectiva. E que é então para nós afinal uma lei da natureza? Não a conhecemos em si mas apenas nos seus efeitos, isto é, nas suas relações com outras leis da natureza, que, por seu turno, só nos são conhecidas como relações. Todas estas relações, por conseguinte, remetem apenas umas para as outras, e são para nós totalmente incompreensíveis na sua essência; na verdade, compreendemos nelas apenas aquilo que lhes atribuímos, o tempo, o espaço, ou seja, relações de sucessão e números. Tudo o que de maravilhoso, porém, admiramos precisamente nas leis da natureza, o que exige o nosso esclarecimento e o que nos poderia levar a desconfiar do idealismo, tudo isso está única e exclusivamente no rigor matemático e na inviolabilidade das representações de tempo e espaço. Estas construímo-las nós, todavia, dentro e a partir de nós próprios com a mesma necessidade com que a aranha faz a teia; se somos obrigados a apreender todas as coisas apenas sob estas formas, não é já de admirar que apreendamos em todas as coisas de facto apenas essas formas, porque todas elas têm de conter em si as leis do número, e o número é exactamente o que há de mais espantoso nas coisas. Toda a conformidade às leis, que tanto nos impressiona no movimento dos astros e nos processos químicos, coincide no fundo com aquelas qualidades que nós próprios atribuímos às coisas para nos impressionarmos a nós próprios. Daí resulta, no entanto, que essa formação artística de metáforas, com que em nós se inicia qualquer sensação, pressupõe já essas formas, realiza-se portanto nelas; só a partir da firme permanência destas formas primordiais se explica a possibilidade de se poder construir mais tarde, de novo a partir das próprias metáforas, um edifício de conceitos. Este edifício é nomeadamente uma imitação das relações temporais, espaciais e numéricas que assenta em metáforas.

Conforme vimos é a linguagem que trabalha originariamente na construção dos conceitos, só mais tarde a ciência. Tal como a abelha trabalha simultaneamente na construção dos favos e os enche de mel, assim a ciência trabalha incessantemente nesse grande columbário dos conceitos, na necrópole das intuições, constrói cada vez novos e mais elevados andares, reforça, limpa e renova os favos antigos e esforça-se acima de tudo por encher esta armação elevada até o infinito e por arrumar dentro dela a totalidade do mundo empírico, isto é, o mundo antropomórfico. Se já o homem ao agir liga a sua vida à razão e aos conceitos desta para não ser arrastado e não se perder a si próprio, o investigador constrói a sua cabana mesmo ao pé da torre da ciência para ajudar na sua construção e para encontrar protecção para si debaixo do baluarte, já existente. E bem precisa de protecção, pois existem forças terríveis que o pressionam continuamente e que opõem «verdades» completamente diferentes à «verdade» científica, usando os rótulos mais variados.

Esse impulso para a formação de metáforas, esse impulso básico do homem que não se pode esquecer nunca porque com isso se abstrairia do próprio homem, não está de forma alguma dominado e só até certo ponto refreado pelo facto de se construir para ele um mundo novo, regular e rígido a partir dos seus produtos evanescentes, os conceitos, como se de uma fortaleza se tratasse. Ele procura uma outra área do seu agir, outro leito do rio, e encontra-o no mito e principalmente na arte. Não pára de confundir as classes e células dos conceitos ao propor novas transposições, metáforas e metonímias, ao mostrar constantemente o desejo de configurar o mundo já existente do homem desperto de modo tão colorido, desconexo e inconsequente, aliciante e sempre novo, tal como o é o mundo dos sonhos. No fundo, o homem vígil só tem a certeza de estar desperto devido à teia dos conceitos sólida e regular, e precisamente por isso cai às vezes na crença de que está a sonhar quando esta teia de conceitos é ocasionalmente rasgada pela arte. Pascal tem razão ao afirmar que, se nós tivéssemos todas as noites o mesmo sonho, nos preocuparíamos tanto com ele como com as coisas que vemos todos os dias. «Se um artesão tivesse a certeza de sonhar todas as noites durante doze horas seguidas que era rei, seria», creio bem, diz Pascal, «tão feliz quanto um rei que sonhasse todas as noites durante doze horas que era artesão.» A vigília diurna de um povo excitado pelo mito, por exemplo, o dos Gregos antigos devido ao milagre continuamente em acto tal como o mito o assume, é de facto mais parecida com o sonho do que com o dia do pensador científico a quem a ciência fez perder as ilusões.

Quando toda e qualquer árvore pode falar uma vez como ninfa ou quando, disfarçado de toiro, um deus pode raptar donzelas, quando a própria deusa Atena é vista de repente como passa pêlos mercados de Atenas num belo carro de cavalos, acompanhada por Pisístrato — e nisso acreditavam os bons atenienses —, então em cada instante tudo é possível como no sonho, e a natureza inteira enleia o homem, tal como se ela só fosse um jogo de máscaras dos deuses que, por brincadeira, gozam o homem sob todas as formas.

Mas até o homem tem uma inclinação invencível para se deixar enganar e fica como que encantado de felicidade quando o rapsodo lhe conta contos de fadas épicos como se fossem verdadeiros ou quando, no drama, o actor representa o rei ainda mais regiamente do que o mostra a realidade. O intelecto, esse mestre da dissimulação, permanece tanto tempo livre e isento da sua normal servidão quanto pode enganar sem prejudicar e celebra então as suas Saturnais. Jamais é tão exuberante, tão rico, tão orgulhoso, tão ágil e audaz; possuído de prazer criativo, mistura as metáforas e remove os pétreos limites das abstracções, de modo a designar, por exemplo, o rio como a via móvel que leva o homem ao ponto onde ele normalmente vai a pé. Agora livrou-se da marca da servidão; noutras ocasiões esforçado com melancólica solicitude em ensinar o caminho e as ferramentas a um pobre diabo que aspira a existir, e tal como um servo que, para o seu dono, parte à procura de presa e saque, tornou-se agora dono e pode afastar a expressão de indigência. Independentemente do que ele fizer agora, em comparação com o seu agir anterior tudo é impregnado de dissimulação, tal como o anterior agir o era de distorção. Copia a vida humana, considera-a, no entanto, uma coisa boa e parece dar-se razoavelmente por satisfeito com ela. Os imensos vigamentos e andaimes dos conceitos, agarrado aos quais o homem indigente se vai salvando pela vida fora, são para o intelecto libertado apenas um andaime e um brinquedo para as suas habilidades mais ousadas. E quando o destrói, mistura, recompõe ironicamente, juntando o mais estranho e separando o que está mais próximo, então revela que não precisa de esses recursos da indigência e que agora não é guiado pêlos conceitos, mas sim pelas intuições. Não há caminho regular que leve destas intuições para a terra dos esquemas fantásticos, as abstracções; a palavra não é feita para elas, o homem emudece ao vê-las ou fala em metáforas proibidas e construções de conceitos inauditos para corresponder pelo menos de modo criativo à impressão da vigorosa intuição presente pela destruição e pelo troçar dos velhos limites dos conceitos.

Há épocas em que o homem racional e o homem intuitivo estão ao lado um do outro, um com medo da intuição, o outro com desprezo pela abstracção; este é tão pouco racional quanto aquele é pouco artístico. Ambos desejam dominar a vida: este na medida em que sabe responder às principais necessidades com prevenção, prudência, método, aquele, enquanto «herói felicíssimo» que não vê as necessidades e apenas considera como real a vida dissimulada sob uma _ aparência de beleza. Onde alguma vez o homem intuitivo maneja as armas de forma mais enérgica e vitoriosa que o seu adversário como, por exemplo, na antiga Grécia, pode, na melhor das hipóteses, formar-se uma civilização e fundar-se o domínio da arte sobre a vida. Aquela dissimulação, aquela denegação da indigência, aquele esplendor das intuições metafóricas e, em geral, aquela imediatez da ilusão acompanha todas as exteriorizações de uma tal vida. Nem a casa, nem o porte, nem o vestuário, nem o cântaro de barro deixam transparecer que foi a necessidade que os inventou: como se em todos eles só se devesse manifestar uma felicidade sublime e uma clareza olímpica e simultaneamente um brincar com as coisas sérias. Enquanto o homem dirigido por conceitos e por abstracções apenas se defende da infelicidade por meio deles sem forjar a felicidade a partir das abstracções, aspirando à ausência de dor tanto quanto for possível, o homem intuitivo, estando no seio de uma civilização, colhe já das suas intuições, além da defesa contra o mal, uma iluminação, uma alegria e uma redenção que jorram continuamente. De facto, ele sofre mais intensamente, quando sofre: sim, é verdade que também sofre mais vezes porque não sabe aprender com a experiência e cai sempre na mesma armadilha em que já caiu uma vez. Então ele é tão irracional no sofrimento como na felicidade, grita e nada o consola. Quão diferente é no mesmo infortúnio o homem estóico, ensinado pela experiência e dominando-se através dos conceitos. Ele que noutras ocasiões só procura sinceridade, verdade, ausência de fingimento e protecção contra assaltos traiçoeiros, tira agora da infelicidade a obraprima dissimulação, tal como aquele na felicidade; o rosto que apresenta não estremece nem se move mas como [que apresenta] uma máscara com uma digna ponderação dos traços, não grita e nem sequer altera o tom da voz: quando uma verdadeira carga de água desaba sobre ele, cobre-se com a capa e afasta-se dela a passo lento.


trecho de Acerca da verdade e da mentira no sentido extramoral


terça-feira, 6 de março de 2012

DRAMATURGIA ALQUÍMICA: plantando a semente

A proposta é uma criação dramatúrgica, porém, não a criação de um texto de teatro simples ou especificamente, mas a criação de um conceito de dramaturgia, que possa gerar vários textos/objetos, consequentemente.

Desse conceito queremos dizer que não é novo enquanto fundamento da linguagem, pois está inspirado em tradições antigas, como a tradição cabalista, ou não tão antigas, mas bastante exploradas, como nas psicologias da linguagem de Lacan, ou até de Carl G. Jung.

Partindo da idéia de que a linguagem é mais do que comunicação e expressão, e que carrega em si um caráter simbólico, queremos validar, para a dramaturgia, que a palavra tem uma dimensão, inerente, que vai além do "entendimento"; algo em sua estrutura que não está orientada apenas para a comunicação de um elemento comunicável, mas, também para a revelação de algo não comunicável. E não somente validar, porque talvez já tenha esse valor, mas colocar o dito “oque” não comunicável no centro do sentido dramatúrgico, ao contrário do que temos comumente.

"A linguagem, o medium no qual o espírito do homem se concretiza, possui um lado interior, ou seja, um aspecto que não se revela totalmente nas relações de comunicação entre os seres." (O NOME DE DEUS, A TEORIA DA LINGUAGEM E OUTROS ESTUDOS DE CABALA E MÍSTICA: JUDAICA II, de Gershom Scholem, ed. Perspectiva)

Sabemos que algumas línguas, ditas "mortas" (talvez as únicas que tiveram vida) preservavam na sua estrutura, da forma falada, uma relação intrínseca entre significado e significante. No latim, por exemplo, não se podia compreender o sentido de uma oração, senão pelo relacionamento entre o agrupamento das palavras e uma específica expressão sonora para elas; ou seja, a frase "quem sou eu?", em português, pode ser dita de diferentes maneiras, contanto que seus fonemas sejam audíveis e compreensíveis, sem o prejuízo da comunicação de seu sentido. Contudo, em latim, essa comunicação ficaria absolutamente prejudicada, não alcançando o sentido mesmo da frase, se uma específica entoação, ou musicalidade, não fosse aplicada ao sistema. Isso nos coloca a questão de que, para a língua latina (como em outros exemplos possíveis), a comunicação é determinada para além dos efeitos semânticos ou conceituais da palavra (célula formadora); faz-nos entender, também, que as línguas "sobreviventes" no mundo contemporâneo, respondem a uma idéia de comunicação predominantemente conceitual, e muito pouco perceptual, onde o processo acústico é exclusivamente semântico.

Algo não comunicável, mas irradiante na palavra, foi submetido pelo objetivo da comunicação imediata na linguagem contemporânea, em geral; cada língua, conforme as determinações econômico/culturais na qual se insere, preserva mais ou menos esse movimento dinâmico na sua linguística, gerando diferentes graus de afastamento entre as palavras e suas causas primeiras ocultas, das quais procedem. Conforme o estudo da cabala aponta, as letras são signos “provenientes de suas causas primeiras”, uma provável raiz lingüística que abrange toda a linguagem e manifestação do ser, e que consegue traspassar seus efeitos. Ainda nesse estudo verifica-se que o poder mágico do falante está na capacidade de transportar-se para tal raiz.

"O falante grava, de algum modo, o espaço tridimensional da palavra no pneuma." (op.cit.)

Por outro lado, citamos as conclusões que Carl Gustav Jung atingiu nos estudos sobre as associações de palavras: há uma relação intrínseca entre fonética e imaginação, entre som e imagem; propõe uma lei fundamental da imaginação afirmando que seu modo de operação é sonoro, acústico e fonético, ou seja, tanto as palavras como as imagens são fantasias sonoras. Sendo assim, toda imagem psíquica aponta para uma estrutura verbal e para um modelo fonético.

Sendo assim, a dramaturgia passa a solicitar um processo criativo fundamentalmente imago/acústico. Já muitas pesquisas teatrais vêm deslocando a função do ator/intérprete, para o ator/autor; diferentes experiências nesse sentido têm oscilado entre uma colaboração do ator na criação do dramaturgo, e a colocação do ator como o próprio dramaturgo. Considerando as justificativas de pesquisa que salientamos, a realização de nosso estudo depende, necessariamente, da eliminação dessa distinção entre as funções da criação cênica. Destruiríamos todos nossos pressupostos se considerássemos um texto pré-escrito pelo autor, e posteriormente verificado sonoramente pelo ator, ou até escrito conjuntamente entre ambos. No nosso caso só pode ocorrer uma fusão integral das funções, naquele que pratica do rito.

Definida essa premissa passamos à configuração do processo. Além da importância que dedicamos ao estudo de diversificados campos de aplicação como a Cabala, a Psicologia de Lacan e Jung, e principalmente a Alquimia, caracterizamos o início de nossa metodologia pelo estudo de nosso idioma.

Entendemos que a criação desse conceito dramatúrgico pressupõe um mergulho na língua e cultura do autor/ator. Além do óbvio estudo da gramática e sintaxe pertinentes, caberá uma experimentação fonética das células formadoras (as palavras), e mais especificamente das letras/signos. O objetivo de tal verificação é conectar as significações, ou imagens acústicas (e provavelmente arquetípicas) submersas à linguagem. Essa conexão deverá ativar uma força direta que emana das palavras, purificadas ao extremo, aparentemente despidas de significado, mas ao mesmo tempo prenhes de significações e de suas transformações.

O procedimento inspira-se na conclusão junguiana de "tentar liberar e abrir o ego para toda a riqueza polissêmica do discurso imaginal, reduzindo ao máximo a influência da gramática e da sintaxe ao discurso. Buscar diminuir as intensidades da gramática e da sintaxe presentes em excesso no discurso para que a pluralidade e a polivalência da linguagem metafórica da alma possa se expressar." (A ALQUIMIA DAS PALAVRAS, artigo de Marcus Quintaes, Rubedo, www.rubedo.psc.br).

Cabe ressaltar que a linguística brasileira é de extrema diversificação e potente musicalidade, permitindo um amplo campo de estudo; sua formação deriva de diversas fontes linguísticas o que deve provocar diferentes fontes anímicas, se assim se pode afirmar.

A consequência fundamental a ser alcançada é a "ativação" da dramaturgia possibilitando uma inter-relação, entre artista e espectador, de grandeza alquímica, libertando a alma (polissêmica) do aprisionamento da matéria (literalismo dos significados). É esse resultado a que chamamos de DRAMATURGIA ALQUÍMICA.

Nesse sentido então argumentamos que o conceito de DRAMATURGIA ALQUÍMICA vem sugerir que seja definitivamente eliminada a distinção entre ator e autor. Eliminando essa distinção as bases da dramaturgia são reconfiguradas.

É fundamental observar que a eliminação das funções não é uma fusão simples das mesmas num único artista, porém a reconfiguração do conceito de cada função para o surgimento de um novo elemento antes não encontrado. Embora no momento inicial a única possibilidade de entendimento seja utilizando os conceitos já conhecidos das funções, ator e autor, em verdade a DRAMATURGIA ALQUIMICA exige outro tipo de partícipe.

As tentativas de renovação da dramaturgia convencional estando sustentadas nas mesmas bases dos processos a que pretendem superar terminam por redundar essencialmente nos mesmos resultados. Da mesma forma, as tentativas de encontrar no trabalho do ator a solução para uma renovação e reativamento das dinâmicas energéticas competentes à representação cênica, permitem apenas o aumento de compêndios técnicos para interpretação.

A função do ator deve ser completamente deslocada da atividade de intérprete e reestabelecida sua estatura de criador; enfatizamos que a única re-criação cabida ao novo ator está relacionada ao ato primeiro e constitutivo do mundo. Ao contrário de pretender o estabelecimento de uma megalomania de natureza romântica ao status do ator, reativamos sua função arquetípica: O CRIADOR. Entendemos que a ação (não aquela conceituada por Aristóteles) cabível ao ator é a revivência do Ato Primeiro da criação do Universo. Como um Deus/Criador o ator recria continuamente uma única e mesma ação: a Criação de um mundo, e só dessa forma é capaz de transportar-se para a raiz linguística e gravar a tridimensionalidade no pneuma universal.

Deste princípio parte a fonte energética, o sentido transmutador da arte cênica que está na troca estabelecida pelo encontro entre ator e plateia. A DRAMATURGIA ALQUIMICA estabelece conscientemente uma dinâmica invisível entre as partes que justifica o próprio encontro.

No instante que o ator, agora ativo, experimenta o Ato Criativo original e, portanto arquetípico diante da testemunha, ele ascende e acende o catalisador da vida que estabelecerá entre as partes um encontro definitivo porque transmutador. O gestus é o sacrifício de não ser, como a divindade primeva que se desfaz na sua criação para retornar a si mesmo.

Há, portanto apenas um único enredo pertinente a ser dramaturgizado, mascarado nas infinitas formas quantas são as manifestações da criação. A narrativa ou a “liturgização” tornaram-se obsoletas tanto quanto a mimese.

Sublinhamos que a voz, palavra, pneuma é o movimento gerador do sistema. É do sopro que surge o mundo e que se constitui a metáfora. Porém a força motriz do som deve prescindir do conceito senão vindo com e do campo imaginal.

SEMENTE PLANTADA!!




domingo, 4 de março de 2012

HOMOFOBIA TEM CURA: ensino fundamental completo???



Essa imagem está circulando nas redes sociais e a frase teria sido dita pela tal Dani Calabresa. Como hoje a internet é um baú onde se mistura tudo, é possível que a frase não seja dessa pessoa e a imagem uma montagem.

De qualquer forma revela um pensamento de muitos, já que em todas as redes sociais e mídias em que apareceu, foi ovacionada como um estandarte contra o preconceito homofóbico. A frase teria sido uma “resposta” à bancada política evangélica que pretende destacar o homossexualismo como doença.

Claro que a postura da bancada evangélica mereceria um jornal inteiro de artigos só discutindo suas posturas preconceituosas e sua crescente organização social em torno delas. Mas além de criticar e debater contra essas posturas, é fundamental perceber que o espaço que o conservadorismo preconceituoso está ganhando em nossa política está sendo dado pela desorganização conceitual dos ditos “não preconceituosos”. Os evangélicos sabem contra o que lutam, mas os contrários não sabem o que estão defendendo.

Está bastante modernoso defender a causa homossexual. Na verdade parece que as pessoas “lutam” contra os preconceitos que estão mais relacionados ao seu meio social: encontramos pessoas que defendem a causa negra, mas são contra a liberdade da mulher, pessoas que defendem contra a pedofilia, mas são racistas, pessoas que defendem o casamento gay, mas acham que pobre é ignorante!!!!!!!!!!!!!!!!!! As causas são separadas conforme cada um quer expressar sua autoimagem, mas eliminar o PRECONCEITO ninguém elimina. Então ele corre sorrateiramente de um lado para o outro e tanto faz contra o que ele se coloca contanto que esteja sempre presente; o preconceito é uma cobrinha que se esgueira nas sombras humanas. 

Pobre não é ignorante! Ignorantes somos todos porque cada um de nós ignora alguma coisa, ou melhor, cada um de nós ignora muita coisa, o suficiente para sermos ignorantes. Sendo assim não ter completado o ensino fundamental não torna a pessoa UM IGNORANTE, e apenas ignorante em algumas coisas, algumas informações. Essas informações são bastante úteis para nossa sociedade de consumo onde o valor das pessoas é determinado pelo que se TEM, e ter informação dá esse status. Mas em verdade só os ignorantes a cerca da vida materialmente simples não sabem que pessoas sem o estudo do ensino fundamental têm tantos preconceitos quanto pessoas com doutorado completo. Não há relação direta entre esses fatores, a não ser que um preconceito faça a ponte entre eles, aí tudo é possível. Se ter o ensino fundamental completo tivesse qualquer relação com preconceito, não é nem necessário listar quantas pessoas seriam isentas disso... inclusive se os doutores formados no ensino fundamental 1 e 2 e universidade e mestrado até o doutorado perdessem os preconceitos proporcionalmente ao acúmulo de diplomas, nossas leis e administrações públicas seriam bem diferentes.

Que preconceito é resultado de ignorância já é assunto bastante comentado. O que está ficando muito confuso é o conceito de ignorância.... além de confuso está trazendo à tona outro preconceito, contra pessoas de pouco estudo, preconceito esse que surge constantemente nas redes sociais através de toda discussão quanto a gramática da língua portuguesa.

Está aí a confusão, aliás, várias confusões.

A intenção de incentivar uma campanha a favor do ‘ensino fundamental completo’ para todas as pessoas, enfim a possibilidade de oferecer educação para todos, é louvável indiscutivelmente. É também louvável a iniciativa de lutar contra a homofobia. E também é interessante que artistas utilizem os veículos de informação para defenderem causas úteis e com humor é melhor ainda. 

Ponto final.

Fora a boa intenção, que a gente sabe que não serve pra nada, o comportamento é tão preconceituoso quanto os que pretende acusar. Aliás, nossos humoristas ultimamente vêm se afogando em atitudes preconceituosas. Falam muito e muita burrice.

 E isso é tão óbvio que vale perguntar POR QUE uma pessoa faria essa colocação tão sem lógica???

Será que tem gente que acredita realmente que a falta de estudo é sinônimo de ignorância e não percebe o preconceito incutido nisso?

Ao invés de queremos ficar “na moda” defendendo conceitos e atacando o preconceito do outro, não tá na hora de olhar pro próprio rabo?

Frase célebre de Gandhi: "FAÇA EM VOCÊ A MODIFICAÇÃO QUE GOSTARIA DE VER NO OUTRO" ou "TEMOS QUE NOS TORNAR A MODIFICAÇÃO QUE QUEREMOS VER"

Pode ser?