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segunda-feira, 16 de julho de 2018

NATUREZA MORTA


A arte morreu?

Não, não temos o poder de eliminar nem a arte, nem a natureza, nem o devir, nem o desejo, nem a realidade.

Mas temos nos exercitado muito no desenvolvimento de um poder, ressentido, de sufocar a arte naquilo que ela tem de intensivo, fingindo que ela é extensiva.

A arte continua brotando porque ela é quase como o ar de sobrevivência do ser humano. Ou ela é o próprio ar que depois que se inspira se expira.

Mas assim como o desejo que não cessa de se criar, a arte também é cooptada a todo instante. Está cada vez mais difícil produzir fora do alcance da cooptação do poder. No mundo em que estamos inseridos, na loucura da maquina destrutiva de vida do capitalismo, assim que algo se cria imediatamente se torna produto. No mal sentido desse sentido.

Aliás, antes mesmo de ser criada, a criação já está capturada porque os meios de produção estão sob controle. Materiais e imateriais.

E se algum respiro fora do esperado eclode, um pernicioso processo se instaura imediatamente para esvaziar a intensidade da criação tornando-a apenas mais uma forma. E glorificamos a forma como se ela fosse o sinônimo do ato criativo, sendo que esse já não se faz mais presente. No instante em que glorificamos a forma estamos justamente a esvaziando de sua intensidade. Estamos muito bem treinados para colaborar com nossa própria escravatura.

A única possibilidade de sobrevivência de uma zona de criação é desinformar a forma antes dela ser esvaziada, para que ela não se separe, não se distinga da intensidade da qual participa. Ou antes, percebe-la como intensidade. Não separar mais a forma do seu conteúdo, o corpo do seu espírito, o acontecimento do seu devir, o desejo do seu sujeito, Deus da existência.

E o que o artista de hoje não sabe é justamente ver a forma de forma indistinta da intensidade, já que ele se tornou, justamente, o criador de formas. O reprodutor de ideais, quando não das convenções e dos hábitos, reprodutor dos ideais esvaziados de existência, carregados de verdades, mais socialistas, mas ainda verdades.

Nem a performance, o eventual, mantém sua eventualidade porque o próprio artista já é o passado do que deveria ser. Por mais que ele acredite estar criando no momento presente, e está, ele cria a partir das suas marcas, das marcas e ressentimentos coletivos. É um reprodutor, muito longe de ser um criador.

Nem o teatro, a arte do presente por excelência, da efemeridade, encontrou sua desterritorialização, trancado nas salas de espetáculo, amarrado aos textos, às convenções do existir de pessoas impotentes.

E mesmo se toma as ruas, se se entrega aos improvisos, se tenta imaginar novas existências, perde o único instrumento de que se valeria para ser teatro: o acontecimento. E por acontecimento não podemos nos iludir em encontros e diálogos vestidos pela hipocrisia da qual sequer conseguimos nos despir.

Carregada de sentido, significados e intencionalidade a arte se afoga em seus lamentos, evapora no fogo de suas reatividades e se perpetua, inevitavelmente, impotente.

Não à toa ainda se vê arte justamente nos pontos mais distantes das galerias, das academias, das livrarias, das cidadanias...

A lógica é simples: não tem como a arte ser viva onde a natureza está morta.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Peça é proibida em São Paulo

Sobre a proibição do espetáculo LONDON, do grupo Satyros em São Paulo, devido a um pedido feito pela mãe da menina Isabella Nardoni, após várias manifestações que já publiquei no meu facebook, venho destacar essa; o texto abaixo é uma resposta a publicação de Paulo Santoro em seu blog onde coloca que toda questão é uma discussão juridica entre os direitos das partes.


Arte não se enquadra em "liberdade de expressão", a não ser para os juristas claro.

O direito à liberdade de expressão é aquele que qualquer cidadão tem de se manifestar, de manifestar suas opiniões. O que o artista faz numa obra não se limita a isso!!!

Não estamos apenas reclamando o direito de um se defender contra o do outro de se expressar, como querem os advogados, que seria um problema juridico, como se pretende apontar.

Não. A arte não se enquadra no âmbito juridico da livre expressão, por favor!!!! Isso a gente gritava no tempo da ditadura quando dizer "merda" já era uma conquista.

Não se pode relacionar juridicamente um direito pessoal (como o tem a mãe da Isabella, e isso ninguém nega) contra o âmbito da criatividade na qual a arte se insere.

Não podemos normatizar a criatividade sem consequências desastrosas para sociedade.

Sentados na platéia do teatro ninguém pode gritar "fogo" se o teatro não estiver se incendiando (como argumenta em seu blog Paulo Santoro justificando os limites da liberdade de expressão, ao qual estou respondendo com este texto).

NO PALCO PODE!!!!!! Dentro do mesmo teatro onde a sociedade tem que restringir sua "liberdade de expressão" em prol da coletividade, no palco o artista pode gritar fogo desesperadamente e se descabelar. Pode esfaquear uma bonequinha chamada Isabella sem ir pro sanatório, pode ter uma personagem que diga que a raça negra é imunda, sem ir preso por dar esse texto. OU NÃO????? qual é a diferença entre a arte e a liberdade de expressão de um cidadão???? Vamos normatizar as obras??? A partir de quais conceitos??? DAS LEIS???? Essa diferença fundamental muitas pessoas estão negando!! É o fim do conceito de arte!!!!








SE ISSO NÃO É CENSURA ENTÃO TEATRO TAMBÉM MUDOU DE NOME!!!

sábado, 21 de abril de 2012

TEATRO DE DIRETORES - Parateatro n.5



Acabou. Embora continue, acabou. O Diretor de Teatro tem uma única função agora: fazer transparecer nossa incapacidade de auto-gestão; deixar absolutamente explícita nossa incompetência para a liberdade criativa. O Diretor de Teatro só serve pra mostrar que não somos Atores. Não existe outra função para o Diretor de Teatro.

A idéia enganosa de que o Diretor de Teatro é um agente criativo, um artista mesmo, só é cabível nessa Zona Autômata Interminável em que o Teatro está mergulhado. Como ficamos excitados com o surgimento do encenador/salvador do teatro que reascendeu a função metafórica da arte cênica no século mais que passado. Mas que engodo! Que ilusão tivemos. Com os Diretores de Teatro apenas conseguimos perpetuar nossas necessidades de hierarquias e disputas de poder. E com isso perdemos o Teatro, nos perdemos dele afogando o Ator nas instituições.

A Arte Teatral não é a arte do Diretor de Teatro, é a Arte do Ator e por isso o Diretor de Teatro deveria servir a essa Arte e não tentar manipulá-la, disputá-la sagazmente.

A falácia que existe nos chamados Processos Colaborativos é representativa de tal manipulação. Há quem queira relacionar os Processos Colaborativos da moda com as antigas criações coletivas, hippies. Não há nada de coletivo nesses colaborativos e nada de criativo nesses processos.  Há apenas um desrespeito infindável contra o Arquétipo da Criatividade. As Criações Coletivas dos engraçados anos 60/70 ainda desconheciam, ou queriam desconhecer, os verdadeiros fundamentos autoritários da Democracia.

Os Processos Colaborativos reproduzem os mentirosos mecanismos democráticos em que vivemos e então nosso teatro não colabora em nada para trilharmos os caminhos sinceramente libertários. O ator que se submete aos Processos Colaborativos, hoje premiáveis e cooperativáveis, não se sabe como Ator. É dessa ignorância que está sobrevivendo uma perigosa máquina cultural.

Mais perigosos dos que detêm o poder do Estado são os que detêm o poder dos meios culturais, já dizia Artaud. Chamamos de “vanguarda” hoje as produções teatrais do Anti-Teatro. É melhor assim, pois a eles cabem os rótulos.

Admirável é o Diretor de Teatro que se coloca como um Tirano, chicoteando seus atores para correrem atrás de “marcas” e desmoralizando suas esteriotipias que eles acreditam serem artísticas, pois está realmente realizando seu papel, de vampiro do caos alheio. Aplaudível é o Diretor de Teatro que recusa a participação criativa daqueles inertes, ditos atores, que se submetem à miséria humana coreografada. Presta serviço à Humanidade o Diretor de Teatro que não se finge generoso, qualidade do Ator, pois reconhece sua função: revelar que até no teatro estamos ignorantes da nossa Missão.




terça-feira, 6 de março de 2012

DRAMATURGIA ALQUÍMICA: plantando a semente

A proposta é uma criação dramatúrgica, porém, não a criação de um texto de teatro simples ou especificamente, mas a criação de um conceito de dramaturgia, que possa gerar vários textos/objetos, consequentemente.

Desse conceito queremos dizer que não é novo enquanto fundamento da linguagem, pois está inspirado em tradições antigas, como a tradição cabalista, ou não tão antigas, mas bastante exploradas, como nas psicologias da linguagem de Lacan, ou até de Carl G. Jung.

Partindo da idéia de que a linguagem é mais do que comunicação e expressão, e que carrega em si um caráter simbólico, queremos validar, para a dramaturgia, que a palavra tem uma dimensão, inerente, que vai além do "entendimento"; algo em sua estrutura que não está orientada apenas para a comunicação de um elemento comunicável, mas, também para a revelação de algo não comunicável. E não somente validar, porque talvez já tenha esse valor, mas colocar o dito “oque” não comunicável no centro do sentido dramatúrgico, ao contrário do que temos comumente.

"A linguagem, o medium no qual o espírito do homem se concretiza, possui um lado interior, ou seja, um aspecto que não se revela totalmente nas relações de comunicação entre os seres." (O NOME DE DEUS, A TEORIA DA LINGUAGEM E OUTROS ESTUDOS DE CABALA E MÍSTICA: JUDAICA II, de Gershom Scholem, ed. Perspectiva)

Sabemos que algumas línguas, ditas "mortas" (talvez as únicas que tiveram vida) preservavam na sua estrutura, da forma falada, uma relação intrínseca entre significado e significante. No latim, por exemplo, não se podia compreender o sentido de uma oração, senão pelo relacionamento entre o agrupamento das palavras e uma específica expressão sonora para elas; ou seja, a frase "quem sou eu?", em português, pode ser dita de diferentes maneiras, contanto que seus fonemas sejam audíveis e compreensíveis, sem o prejuízo da comunicação de seu sentido. Contudo, em latim, essa comunicação ficaria absolutamente prejudicada, não alcançando o sentido mesmo da frase, se uma específica entoação, ou musicalidade, não fosse aplicada ao sistema. Isso nos coloca a questão de que, para a língua latina (como em outros exemplos possíveis), a comunicação é determinada para além dos efeitos semânticos ou conceituais da palavra (célula formadora); faz-nos entender, também, que as línguas "sobreviventes" no mundo contemporâneo, respondem a uma idéia de comunicação predominantemente conceitual, e muito pouco perceptual, onde o processo acústico é exclusivamente semântico.

Algo não comunicável, mas irradiante na palavra, foi submetido pelo objetivo da comunicação imediata na linguagem contemporânea, em geral; cada língua, conforme as determinações econômico/culturais na qual se insere, preserva mais ou menos esse movimento dinâmico na sua linguística, gerando diferentes graus de afastamento entre as palavras e suas causas primeiras ocultas, das quais procedem. Conforme o estudo da cabala aponta, as letras são signos “provenientes de suas causas primeiras”, uma provável raiz lingüística que abrange toda a linguagem e manifestação do ser, e que consegue traspassar seus efeitos. Ainda nesse estudo verifica-se que o poder mágico do falante está na capacidade de transportar-se para tal raiz.

"O falante grava, de algum modo, o espaço tridimensional da palavra no pneuma." (op.cit.)

Por outro lado, citamos as conclusões que Carl Gustav Jung atingiu nos estudos sobre as associações de palavras: há uma relação intrínseca entre fonética e imaginação, entre som e imagem; propõe uma lei fundamental da imaginação afirmando que seu modo de operação é sonoro, acústico e fonético, ou seja, tanto as palavras como as imagens são fantasias sonoras. Sendo assim, toda imagem psíquica aponta para uma estrutura verbal e para um modelo fonético.

Sendo assim, a dramaturgia passa a solicitar um processo criativo fundamentalmente imago/acústico. Já muitas pesquisas teatrais vêm deslocando a função do ator/intérprete, para o ator/autor; diferentes experiências nesse sentido têm oscilado entre uma colaboração do ator na criação do dramaturgo, e a colocação do ator como o próprio dramaturgo. Considerando as justificativas de pesquisa que salientamos, a realização de nosso estudo depende, necessariamente, da eliminação dessa distinção entre as funções da criação cênica. Destruiríamos todos nossos pressupostos se considerássemos um texto pré-escrito pelo autor, e posteriormente verificado sonoramente pelo ator, ou até escrito conjuntamente entre ambos. No nosso caso só pode ocorrer uma fusão integral das funções, naquele que pratica do rito.

Definida essa premissa passamos à configuração do processo. Além da importância que dedicamos ao estudo de diversificados campos de aplicação como a Cabala, a Psicologia de Lacan e Jung, e principalmente a Alquimia, caracterizamos o início de nossa metodologia pelo estudo de nosso idioma.

Entendemos que a criação desse conceito dramatúrgico pressupõe um mergulho na língua e cultura do autor/ator. Além do óbvio estudo da gramática e sintaxe pertinentes, caberá uma experimentação fonética das células formadoras (as palavras), e mais especificamente das letras/signos. O objetivo de tal verificação é conectar as significações, ou imagens acústicas (e provavelmente arquetípicas) submersas à linguagem. Essa conexão deverá ativar uma força direta que emana das palavras, purificadas ao extremo, aparentemente despidas de significado, mas ao mesmo tempo prenhes de significações e de suas transformações.

O procedimento inspira-se na conclusão junguiana de "tentar liberar e abrir o ego para toda a riqueza polissêmica do discurso imaginal, reduzindo ao máximo a influência da gramática e da sintaxe ao discurso. Buscar diminuir as intensidades da gramática e da sintaxe presentes em excesso no discurso para que a pluralidade e a polivalência da linguagem metafórica da alma possa se expressar." (A ALQUIMIA DAS PALAVRAS, artigo de Marcus Quintaes, Rubedo, www.rubedo.psc.br).

Cabe ressaltar que a linguística brasileira é de extrema diversificação e potente musicalidade, permitindo um amplo campo de estudo; sua formação deriva de diversas fontes linguísticas o que deve provocar diferentes fontes anímicas, se assim se pode afirmar.

A consequência fundamental a ser alcançada é a "ativação" da dramaturgia possibilitando uma inter-relação, entre artista e espectador, de grandeza alquímica, libertando a alma (polissêmica) do aprisionamento da matéria (literalismo dos significados). É esse resultado a que chamamos de DRAMATURGIA ALQUÍMICA.

Nesse sentido então argumentamos que o conceito de DRAMATURGIA ALQUÍMICA vem sugerir que seja definitivamente eliminada a distinção entre ator e autor. Eliminando essa distinção as bases da dramaturgia são reconfiguradas.

É fundamental observar que a eliminação das funções não é uma fusão simples das mesmas num único artista, porém a reconfiguração do conceito de cada função para o surgimento de um novo elemento antes não encontrado. Embora no momento inicial a única possibilidade de entendimento seja utilizando os conceitos já conhecidos das funções, ator e autor, em verdade a DRAMATURGIA ALQUIMICA exige outro tipo de partícipe.

As tentativas de renovação da dramaturgia convencional estando sustentadas nas mesmas bases dos processos a que pretendem superar terminam por redundar essencialmente nos mesmos resultados. Da mesma forma, as tentativas de encontrar no trabalho do ator a solução para uma renovação e reativamento das dinâmicas energéticas competentes à representação cênica, permitem apenas o aumento de compêndios técnicos para interpretação.

A função do ator deve ser completamente deslocada da atividade de intérprete e reestabelecida sua estatura de criador; enfatizamos que a única re-criação cabida ao novo ator está relacionada ao ato primeiro e constitutivo do mundo. Ao contrário de pretender o estabelecimento de uma megalomania de natureza romântica ao status do ator, reativamos sua função arquetípica: O CRIADOR. Entendemos que a ação (não aquela conceituada por Aristóteles) cabível ao ator é a revivência do Ato Primeiro da criação do Universo. Como um Deus/Criador o ator recria continuamente uma única e mesma ação: a Criação de um mundo, e só dessa forma é capaz de transportar-se para a raiz linguística e gravar a tridimensionalidade no pneuma universal.

Deste princípio parte a fonte energética, o sentido transmutador da arte cênica que está na troca estabelecida pelo encontro entre ator e plateia. A DRAMATURGIA ALQUIMICA estabelece conscientemente uma dinâmica invisível entre as partes que justifica o próprio encontro.

No instante que o ator, agora ativo, experimenta o Ato Criativo original e, portanto arquetípico diante da testemunha, ele ascende e acende o catalisador da vida que estabelecerá entre as partes um encontro definitivo porque transmutador. O gestus é o sacrifício de não ser, como a divindade primeva que se desfaz na sua criação para retornar a si mesmo.

Há, portanto apenas um único enredo pertinente a ser dramaturgizado, mascarado nas infinitas formas quantas são as manifestações da criação. A narrativa ou a “liturgização” tornaram-se obsoletas tanto quanto a mimese.

Sublinhamos que a voz, palavra, pneuma é o movimento gerador do sistema. É do sopro que surge o mundo e que se constitui a metáfora. Porém a força motriz do som deve prescindir do conceito senão vindo com e do campo imaginal.

SEMENTE PLANTADA!!




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Carta a um Amigo - num dia de inquietude


Nunca
ninguém pôde te compreender como eu.
Vivi ao teu lado a completa experiência de entrar em contato com um mestre.
Um mestre entre os homens existe pra que experimentemos o que será
a verdadeira relação com o Mestre. 


Daqui, agora
passo para a próxima fase. Encerra-se minha iniciação
e como neófita agora sigo meu caminho.
O pescoço foi cortado. 

Quando você me deu Cassandra compreendi profundamente o que me estava sendo dado;
não um papel numa peça, mas um papel na Grande Peça.
E você era o instrumento, o indicado para me dar esse papel.

A certa altura entendi que precisava tomar o navio em direção ao meu destino:
minha iniciação apolínea, minha individuação.

Embarquei.

Só não entendi, por algum tempo, como
se daria o ritual, senão diante do público? 


Mas ele se deu:
embarquei ainda nos ensaios de Tróia
e atingi a CELEBRAÇÃO, através da satânica e alquímica Laura.

Agradeço o fim do Prét-a-Porter
porque efetivamente encerrei meu trabalho no último dia.
Não tinha mais pra onde ir
depois da cena que fiz com a Silvia na última apresentação. 


Um dia você parou diante de nós, apontou o dedo para o infinito e disse:
não olhem pro meu dedo, olhem para onde aponta.

No momento ele apontava uma parede, apenas.

Hoje eu tenho todo o Universo diante de mim. 

Eu olhei.
Pra dentro.

Encontrei um novo mestre.
Ele agora me dirige. 


Hoje entendo, finalmente, que você não viria comigo.
Você está para apontar para um lugar onde você não está.

Hoje você aponta para mim.

Eu estou aqui

e, assim, não estou mais. 


Obrigada
por ter, generosamente,
servido a mim como um mestre.

Esforcei-me para te servir como discípulo.
Mas, você sempre soube disso,
meu maior agradecimento é ir embora e seguir.

Seguir a mim mesma. 


Conheci D'us
nas tuas mãos,
pela ponta do teu dedo.


Agora sou ouro.
Tenho as asas de Hermes.

quem chamam Daniella
(escrito em 2000)


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

TEATRO DA DOR - Parateatro n.4



Gostamos da Dor não podemos negar. Entendemos a Vida pela limitação e agimos pela Resistência. Para a Luz devemos integrar a Sombra. Encontramos a Vida quando morremos. A Cultura da Guerra, da Perda, da Imperfeição.

Com nossas TRAGÉDIAS perpetuamos a Dor. Não foi à toa que essas propostas catárticas nasceram onde também nasceram nossas dúvidas. Dúvidas Ocidentais. (rs) Mas com respostas alquímicas.

Parece que se não houver CONFLITO, não tem graça. Com certeza, porque não tem Graça. “A Gravidade e a Graça”.

Podemos lidar com a Gravidade sem precisar experimentar o conflito; ainda entendemos a força gravitacional de uma perspectiva de Anjos: a impossibilidade de voar. Mas não somos anjos, não somos seres alados. Nossas asas não são físicas, são as Asas da Imaginação. É assim que voamos: num estado imaginal. Que não é transe.

Chega de recontar a história de vidas frustradas, a história de traumas; não somos formados de traumas, somos formados de AMOR. Essa é nossa natureza. Não podemos sucumbir à ortodoxia dos DNAs.

O Ator É um atleta afetivo, sim. Quer dizer, atleta talvez não, mas é afetivo com certeza.

Criamos o Mundo. E por que o criamos tão triste? Desesperador? Porque gostamos de tragédias, dramas, novelas.

Se trocarmos o entendimento quanto à força da gravidade, perceberemos sua faceta de atratividade. A força gravitacional é uma atração recíproca entre corpos, massas pulsantes. A Terra nos ama e não nos aprisiona. Somos livres.

Um Ator sem Centro de Gravidade nunca entra em cena. Perambula pelo palco, mas não o notamos, pois não existe, ele nega a si mesmo. Foi nesse quesito a “forcinha” que as culturas do corpo orientais nos deram, nos dão.

O primeiro quesito no teatro, de qualquer lado do mundo, é saber ANDAR em cena. O Ator deve aprender a andar. Seja deslizando seus pés no solo, seja batendo vigorosamente contra ele, seja apenas caminhando, simplesmente, o teatro EXIGE que se saiba andar. Andar em cena.

Mas andar não num plano linear. Podemos ficar completamente parados em cena e andar por todo o mundo. É o andar da Alma, que anima o corpo. Não precisamos de movimentos físicos para nos mover. Disto sabe bem a Yoga. Precisamos apenas estar PRESENTES e o movimento se torna infinito.

A Dor está no passado e no futuro, pois podemos criar o Presente sem ela. Agora. O Teatro Feliz. (rs)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

TEATRO DE CURA - Parateatro n.1


Artaud, Antonin, foi talvez o último visionário das questões relativas ao Teatro. Pelo menos o último reconhecido e respeitado (o que já é um crédito significativo para um visionário).

Na sua suposta doença-loucura prenunciou uma não-suposta doença-loucura devorando a Cultura, relíquia da humanidade. No papel, imposto, de doente, Artaud reclamou a Cura; devolveu aos seus inquisidores, a sociedade, o mesmo rótulo, bárbaro. Artaud foi aquele que sob o diagnóstico de doente mental trouxe à luz uma sabedoria a respeito do Teatro que ainda não fomos insanos o suficiente para exercitá-la.

Poucos entre nós, seres comuns, discordam desse diagnóstico dado à sociedade: infectada, carregada de tumores, esquizofrênica. Mas quase nenhum de nós aceita a responsabilidade sobre as causas de tanta doença. Só um entre nós, Artaud, nomeadamente compreendeu que a Doença Humana, que o vírus, o tumor ou a esquizofrenia, são perpetuados pela Cultura, que nós perpetuamos.

A Cultura, se não é o remédio, torna-se o próprio mal, porque toda doença é sempre de ordem espiritual. A Cultura é o único bem humano eterno. O único bem que nunca é propriedade. O único fruto imperecível da humanidade.

Curar o ser, os seres, é medicar sua Cultura. É experimentar o próprio futuro. Uma cura espiritual.

Dessa medicina trata a Arte!

De tantas estatísticas sobre quantas curas a ciência computou, nenhuma especifica quantos tumores deixaram de progredir, ou psiques deixaram de cindir por causa da Arte: homeopática, holística, gestáltica, profunda.

Porque a cura espiritual - expansão da Consciência - não é quantitativa, transformando a qualidade do Ser; e doença é a má-qualidade de vida.

Na sociedade tiranizada pela Ciência o artista produz entretenimento.

Na sociedade fragilizada pela Doença o artista é curandeiro.

É a função de Cura Espiritual que retorna às mãos do Artista, já que os médicos estão à base de morfina!!!