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domingo, 20 de maio de 2012

Duende Flamenco


ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA AMIGOS DE ANDALUCIA




AL AUTOR
José Mª Parra
ARTÍCULOS DE FLAMENCO

¿Qué es...el duende flamenco?

En muchas ocasiones hemos leído u oído decir definiciones acerca de ese sentimiento o emoción interna que los intérpretes flamencos albergan –aunque no con la frecuencia deseada- cuando interpretan el flamenco.


Algunos estudiosos de la teoría flamenca han configurado denominaciones entorno a este fenómeno. Este es el caso de Carlos Almendros que afirmó que el duende es "una fuerza y misterio que adquiere una manifestación artística, cuando ésta capta el espíritu, produciéndose un particular estremecemiento", Anselmo González Climent dijo "es el momento en el que se percibe la pureza escénica que se desea, es estar en trance, en desborde confesional, es el momento de la perfección artística y de la plenitud humana del cantaor y, por ende, del cante flamenco", Domingo Manfredi Cano escribió, "el duende es una situación en la que el cantaor alcanza los límites del trance y transmite a sus oyentes una carga emocional de tal naturaleza que los arrastra al paroxismo, límite con la locura, es cuando los oyentes se rasgan la camisa a tirones y los hombres más enteros, se secan los lagrimones a manotazos", otra definición fue la de Emilio García Gómez que lo llamó situación-límite o situación psíquica que traducida mediante el tárab, palabra árabe, significa entusiasmo, éxtasis, enajenación, para Alicia Mederos el duende "es algo así como escuchar el rumor del mar en una caracola y sentir que todos los océanos caben en ese espacio mágico de viejísimas melodías".

En mi opinión, el duende es un estado de ánimo en el que el intérprete flamenco se siente como si casi no existiera, es un momento en el que la mente se encuentra despojada de ataduras y vacía de contenido, unos instantes en los que uno no tiene nada que ver con lo que ocurre alrededor y en los que simplemente se contempla de forma maravillada y respetuosa todo lo que sucede, es algo que fluye por si mismo.
El duende es un estado de gracia, en el que la excelencia se produce sin el menor esfuerzo, un estado en el que el intérprete está absorbido por el presente y en el que sus emociones están exentas de represión alguna, más al contrario, estas se activan de forma positiva y se alinean con la actividad que se esta llevando a cabo, bien sea cante, toque o baile.

Abundando un poco más en la definición de este fenómeno, se puede decir que, el rasgo característico de esta experiencia extraordinaria es una sensación de alegría espontánea en la que se produce un cierto rapto de nuestro consciente. Son momentos en los que uno se siente tan bien que resulta intrínsecamente recompensable, un estado en el que el artista se absorbe por completo y presta una atención indivisa a lo que está haciendo.

Cuando se alcanza esta situación la atención se focaliza tanto, que la persona pierde la noción del tiempo y del espacio, es un estado de olvido de uno mismo, una forma de estar en la que uno se encuentra tan absorto en la tarea, que desaparece por completo toda consciencia de sí mismo y en el que se abandonan hasta las más pequeñas preocupaciones de la vida cotidiana.

Los momentos del duende son momentos en los que el ego se halla completamente ausente y en los que el rendimiento es extraordinario, aunque paradójicamente, la persona está completamente despreocupada de lo que hace y su única motivación descansa en el mero gusto de hacer lo que se está haciendo ... cantar, tocar o bailar.



terça-feira, 15 de maio de 2012

O Nascimento da Didática Flamenca: primeiras suposições


Minha reflexão não está baseada em nenhum estudo científico, em nenhum estudo antropológico, em nenhuma pesquisa de nenhuma natureza. Este blá blá blá que vou propor está baseado na minha imaginação, na minha forma reflexiva de observar a realidade atual do ensino do flamenco, em particular da dança, para supor sua gênese, como se deu essa história.

(Aliás, a história é sempre uma visão imaginativa de uma realidade suposta que se localiza num tempo que não existe e que chamamos de “passado”. Preferimos quando essa produção criativa tenta se sustentar em estudos, objetos e pesquisas que nos aproximem dos fatos desse passado, mas a interpretação que fazemos desses objetos e “provas” é ainda pura imaginação.)

Vou seguir com meu deleite.

Vou supor então que num dado momento o flamenco já existia: alguns grupos sociais cultivavam (no sentido de Cultura) essa forma de expressão, essa forma de diversão. Em vários cantos da Andalucia, ao mesmo tempo, foram pipocando expressões que se entrecruzavam e se transformavam até gerar uma “coisa” que já tinha um corpo próprio que se denominou: o flamenco.

Detalhes dessa história à parte imagino ainda que, diante da pobreza e da necessidade, alguns nesses grupos entenderam que podiam transformar isso em “trabalho”, ou porque eram talentosos e paravam a festa, passaram a receber um copinho de xerez de graça, depois uma pratito de paella. Então passaram a ser convocados para alegrar a galera, ou talvez tenham ido até uma cueva e deram idéia ao proprietário de agregar a venda das bebidas à performance tão carismática. Tudo isso ao mesmo tempo. O fato é que o flamenco foi virando meio de ganho, trabalho.

Mas com certeza não devia ter espaço de apresentação para tantos: quem é que não queria ganhar dinheiro cantando e dançando? Quem é que não quer ficar rico jogando bola? Imagina encher o banco de dinheiro batendo uma pelada!! Maravilhoso. Aí vem a realidade e começa a selecionar: um porque é mais talentoso, outro porque é amigo do dono da cueva, outro por isso ou por aquilo. E como até hoje artista ganha muito mal, imagino que naquele tempo o cachê devia ser uma desgraça.

Também imagino que uma platéia de leigos foi se apaixonando por aquela arte, e muitos nessa platéia quiseram APRENDER a fazer aquilo. Provavelmente os ciganos deram risada ao pensar que pessoas nascidas fora de sua cultura pudessem aprender o flamenco, mesmo porque embora tenham ensinado gerações e gerações a sua arte, foi uma didática espontânea, inconsciente muitas vezes, como quem ensina a segurar um garfo para comer, ou brincar de pique para se divertir.

Como terá nascido a didática da arte flamenca, fora do meio familiar, do ambiente cultural? Como os artistas flamencos começaram a “se distanciar” de sua arte para tentar transformá-la em técnica?

Para ensinar alguém a andar, se for ensino consciente, é preciso destrinchar o movimento, saber por onde começa como se desenvolve e onde termina. Se primeiro estico a perna para dar o passo ou se jogo meu tronco contra o chão e o passo surge depois para amortecer uma suposta queda. Não pensamos nisso porque não precisamos, mas ao ensinar uma criança precisamos refletir e perceber como fazemos para só então ensinar.

Talvez então o que para um flamenco era tão espontâneo que ele nem sabia onde começava e onde terminava, teve que ser desmembrado, repartido.

Como não sei de fato o que aconteceu, sou obrigada a observar o ensino hoje para tentar revelar essa história. O curioso é que uma aula de flamenco atual (e já há muitos anos) acontece de frente para um espelho, seqüências de movimentos destacados do baile formam exercícios de treinamento. Essa estrutura que conhecemos, em minha opinião/imaginação, não parece coerente com o “universo” do flamenco, tão caótico (porque o caos é sua fonte dramática), tão espontâneo, tão sentimental, indisciplinado, ou melhor, desregrado.

O que aconteceu nessa passagem entre as cuevas, as juergas, a vida noturna e desregrada, até chegar às assépticas salas de aula, narcisistas e espelhadas, com seqüências repetitivas e disciplinadas dos movimentos retorcidos?

Pode ter acontecido, mas é difícil imaginar que essa estrutura tenha sido criada pelo próprio artista flamenco; parece que houve uma interferência externa a essa cultura, que trouxe modelos e informações diferentes. O próprio conceito de dança e sentido ou objetivo de dançar se modificou. O flamenco sofreu o mesmo processo que muitas outras danças enfrentaram.
Faço questão de resgatar o antigo e fundamental livro de Roger Garaudy, “Dançar a Vida” que reflete: “a dança, que sempre falou do amor, da luta, da morte e das coisas depois da morte, degenerou, então, num academicismo e num virtuosismo sem nenhum significado humano”. Escrito há 30 anos sobre a história de todas as danças, parece descrever a situação do flamenco atual.

Garaudy acusa que a “codificação” da dança, como em outras artes, gerou um “academicismo” e uma esclerose: “A perfeição técnica tornou-se um fim em si mesmo: o essencial, a partir daí, era a clareza, o equilíbrio e a ordem, mesmo que isto levasse à rigidez. A arte se separava da vida e de sua expressão.”

Talvez eu não devesse dizer mais nada, pois já está tudo dito. Mas vou redundar então.

Quando afastamos a arte da vida, além dela perder sua função (terapêutica, social, cultural, espiritual, expressiva, energética, ética, .......) ela se transforma no próprio instrumento de alienação do indivíduo: a obsessão pelo perfeccionismo técnico é apenas a expressão do esvaziamento de sentido, do separatismo entre alma e corpo, entre matéria e espírito, entre interior e exterior. A distinção entre arte e vida é a morte da própria arte para torná-la bem de consumo, produto. Uma “evasão da realidade”, nomeou Garaudy.

Quem diria que uma expressão social de revolta e rebeldia, um manifesto libertário se transformaria na própria prisão? O perigo do afastamento da expressão artística de seu sentido original é torná-la instrumento de manipulação, alienação e passividade. Embotamento da criatividade.

Não tem como esquecer que a dança clássica é o exemplo modelar desse processo: a busca quase atlética pela perfeição técnica, de um sistema de movimentos anti-orgânico, anti-expressivo, anti-espontâneo, anti-criativo, resultou numa dança elitista, distante das ruas, dos povos, sem etnias, sem humanidade, porém bela. Uma busca pela forma, pela execução, pelo resultado a qualquer custo, à custa da despersonalização do artista. O Belo acima do Humano. O ideal acima da carne!

Um quadro que deveria ser completamente diferente do universo flamenco: feio, descabelado, retorcido de roupas rasgadas em peles suadas, em corpos alcoolizados cheirando a fumaça. Como será que conseguiram domesticar o flamenco a esse ponto? Não que eu seja contrária ao desenvolvimento técnico de nada. Ou será que sou?

Foi por medo dessa domesticação que o povo flamenco resistiu tanto em compartilhar sua arte? Mas está aí Paco de Lucia para provar que compartilhar gera transformação sim, mas essa mudança pode ser para aprofundar e não necessariamente para reduzir o sentido da arte. O que pode ser domesticado, “tecnicizado”, e o que deve permanecer selvagem? Garcia Lorca para nos salvar do dilema já deixou prescrito a teoria do duende: há um mistério que não pode ser domado! Mesmo no auge da técnica existe algo que não pode ser controlado.

Mas o baile, a expressão da dança no flamenco, parece ter herdado o conceito do ballet para sua didática. Afirmo isso porque comparo o ensino do flamenco ao ensino do teatro, da arte dramática.

O ator é também um dançarino, embora os bailarinos detestem ouvir isso. É um artista cênico que, apesar de utilizar a palavra, é também a sua arte a arquitetura do gesto. Levar um lenço ao nariz, numa cena, exige técnica e refinamento do movimento. Não é porque não seja um gesto atlético, ou acompanhado de música (no caso do Teatro Nô, é), ou porque se assemelha ao gesto cotidiano, que não seja dança, já diria Maguy Marin. Levar um lenço ao nariz de uma personagem da aristocracia russa do século passado é absolutamente diferente de levar um lenço ao nariz de uma personagem do povo espanhol em plena guerra civil. Outra coreografia, outros pesos, ritmos, percursos. No entanto na preparação e formação de um ator não existem salas com espelhos, nem seqüências repetitivas de “assoamentos” de nariz. O movimento é criado, desenhado e depois executado em total relacionamento com os motivos interiores que o acompanham. Não necessariamente “a partir” desses motivos (como muitos pensam ser o teatro), mas “em relacionamento com”. Existem várias discussões dentro desta discussão que vou conscientemente evitar.

O que trago em questão (há anos) é que a ausência do espelho permite ao ator o desenvolvimento da auto-imagem, da propriocepção do movimento, do contato constante com a dimensão interna da expressividade (coloque um espelho diante de um ator e ele ficará totalmente perdido na sua seqüência) estimulando a autenticidade e espontaneidade, ao invés da repetição e despersonalização da atuação. Estranho é que estes elementos deveriam ser os fatores principais desenvolvidos por dançarinos, mas não são.

O flamenco de hoje não é o flamenco de ontem, e se um dia os espelhos eram absurdos para didática flamenca, hoje é fato! Se no passado os gitanos não compravam metrônomos, hoje são necessários; flamenco tem técnica, merece treinamento exaustivo, repetitivo, quase atlético. Mas não se faz disso, ou se tornará um estilo de dança, que é o que vem acontecendo.
Não se podem evitar os duendes!!

Outro fator que pode ter colaborado para a atual didática na dança flamenca é a “mística” do duende. Nas história dessa arte sempre houve o reconhecimento de que apesar do aspecto técnico da execução, há um aspecto expressivo que foge ao controle da técnica. Algo que aparece em alguns momentos, em algumas pessoas, sem que se possa determinar esse surgimento, e que quando acontece o flamenco se torna “mais flamenco”. Há uma subjetividade na definição do que é o flamenco que não se restringe ao conjunto de regras e fatores. Há um “que” imprevisível e intangível que faz daquela execução mais “perfeita” como arte flamenca.
O flamenco é além de uma técnica, de uma estética, de um estilo, é uma capacidade. Além de ter talento há que se ter duende para ser perfeitamente flamenco.

E como o duende é quem escolhe o artista e não o inverso cabe ao humano aperfeiçoar-se apenas. Talvez essa inevitabilidade tenha dado ao ensino da arte flamenca (e aqui cabe também o toque e o cante), um caráter estritamente técnico-estético.Sua expressividade ou dramaticidade vai apenas até os limites da teatralidade. Pode o artista flamenco estudar a arte dramática até onde lhe certifique a capacidade de lidar com emoções ou interpretar personagens.
Mas mesmo sem ainda adentrarmos nas questões do duende dentro da didática, já poderíamos destacar que a importância dessa dramaticidade foi totalmente colocada de lado na didática atual. Mesmo que pudéssemos compreender a impossibilidade de acessar a obscuridade que envolve essa capacidade misteriosa, ainda sim é muito objetiva a técnica para interpretação dramática dos bailes ou cantes, que ficam à mercê da intuição dos executores. E minha experiência no ensino da interpretação para flamencos me comprovou que o desconhecimento do conceito de duende, ou um entendimento muito místico de sua existência, atrapalhou o desenvolvimento da teatralidade no ensino da arte flamenca.

O flamenco é uma dança-teatro por excelência. Seus bailes não são apenas arquiteturas abstratas da expressão humana, mas gestus sociais e claramente concretos do comportamento humano. Existe uma dramaturgia em todo baile, carregada de emoções e personagens, com histórias e percursos dramáticos. A cena flamenca não difere de várias formas de artes cênicas do oriente, onde teatro e dança não se distinguem com tanta veemência como no ocidente. O teatro Nô, por exemplo, embora diferente do flamenco por ser completamente codificado e normativo, é executado por uma ator/bailarino, enquanto um cantor entoa seu poema e um grupo de músicos acompanha com marcações determinantes na execução. Esse relacionamento intrínseco entre as partes para a realização da personagem-drama está presente.

Porém para o artista flamenco original, essa dramaticidade não é estudada pois deve se dar espontaneamente. Entendo por um lado que essa atitude está mais relacionada com a falta de conhecimento técnico da arte dramática que até certo momento de sua história era considerada espontânea mesmo (ou ator tinha talento para incorporar sua personagem ou não tinha talento). Hoje e já algum tempo sabemos as diversas possibilidades de treinamento do ator para seu desempenho.

Por outro lado a idéia de espontaneidade é um dos pontos cruciais da arte flamenca a meu ver. É nela que reside o duende, é nela que reside a autenticidade do movimento, é nela que reside a chave para integrar vida e arte!!!

Sobre a didática do flamenco e a espontaneidade, farei minha reflexão em outra improvisação.....




segunda-feira, 14 de maio de 2012

FLAMENCO BRASILEIRO


PORQUE DANÇA FLAMENCA NO BRASIL


A princípio pode-se imaginar que as danças representativas da cultura brasileira são aquelas nascidas, ou com origem, no solo e costumes do povo do Brasil; e por isso, a dança flamenca é confundida com dança “espanhola”.

Esses conceitos e pré-conceitos limitam o desenvolvimento da arte expressiva e da pesquisa quanto à alma humana. Existem vários brasileiros que há mais de 40 anos vêm se dedicando ao difícil estudo da arte flamenca, e, hoje, nossos melhores músicos estão sendo incorporados a importantes casas noturnas e grupos de dança flamenca da Espanha, mais precisamente Madrid, capital da modernização dessa arte. O requinte da harmonia e rítmica da música brasileira tem servido de inspiração e expansão da linguagem musical chamada FLAMENCO!

No Brasil, o trabalho talentoso destes artistas não encontrou apoio, porque “fazer flamenco” nunca foi uma atitude compreendida e aceita fora dos limites da arte étnica, comparada a dança do ventre ou dança indiana. Os empresários espanhóis, dando entrada no Brasil, não viram interesse em somar à sua imagem, justamente uma cultura que os afasta da brasilidade, assim como o Brasil nunca encontrou motivo para patrocinar uma arte que lhe parecia “estrangeira”.

Mas como poderia ser estrangeira se é desenvolvida por artistas brasileiros?

O FLAMENCO não é uma arte estrangeira e hoje é praticada e pesquisada nos principais países de desenvolvimento cultural como o Japão, França, EUA, Inglaterra, Alemanha, entre outros.

No Brasil ela aparece já nos anos 50 através de imigrantes espanhóis, e possui hoje mais de 4 gerações de artistas de origem brasileira. Alguém que nasce no Brasil há 4 gerações não é brasileiro???

Do ponto de vista musical, a bossa nova e o desenvolvimento harmônico e peculiaridade rítmica da música brasileira são hoje objeto de interesse entre os mais respeitados inovadores do FLAMENCO espanhol; figuras nacionais como Caetano Veloso, Cássia Eller e Djavan (link: Entrevista com Djavan no site Flamenco Brasil) pertencem há anos, ao grupo de comunicação Madrid-Brasil e são conhecedores de expoentes da música flamenca.

Na dança os desenvolvimentos são mais restritos tanto pela falta de apoio cultural para pesquisas como pela mentalidade que obriga a dança flamenca brasileira a restringir-se a copiar um “código” de movimentos ao invés de estimular o aprimoramento da essência flamenca nos corpos brasileiros, como já aconteceu em tantas outras modalidades de dança, até mesmo no balé clássico.

“ ... ao artista cabe revelar uma experiência singular de mundo e não uma apropriação parcial de códigos manipuláveis e reorganizáveis...” (Suely Rolnik)


Por vários motivos o artista brasileiro, tanto músico como ator/bailarino encontra identidade com o FLAMENCO:

·         O flamenco é uma cultura musical extremamente associada à diversidade rítmica (como a brasileira);
·         O flamenco tem sua identidade cultural resultante da integração de várias culturas e etnias (como a identidade cultural brasileira);
·         o chamado “sangue quente” ou latinidade, caracterizando a expressividade (como a expressividade brasileira);
·         entre tantas outras características.

Nos últimos anos com a facilidade dos meios de comunicação, o artista brasileiro pode aprofundar seus estudos nas raízes do flamenco; essas raízes flamencas sempre estarão na Andalucia (nem todo país espanhol conhece a cultura flamenca, por incrível que pareça e muitos grupos cultivam preconceito contra essa arte por causa de suas origens ciganas), porém o flamenco Andaluz já difere até mesmo das novidades apresentadas na cidade madrilenha.

A arte não é propriedade de ninguém, ela pertence a quem a sente, a desenvolve e a expressa; e no instante seguinte não pertence mais nem ao próprio artista. A Andalucia foi uma espécie de forno onde o flamenco se formou na união de várias culturas; hoje seu resultado pertence ao mundo.

O Brasil é também um ambiente híbrido, mescla de culturas e etnias. O que hoje se reconhece como brasilidade tem traços dos povos africanos e dos muitos imigrantes europeus. Das raízes desta terra a cultura é indígena, mas seria injusto desprezar tantas expressões que pipocam por esse enorme território? A cultura espanhola é só mais uma das sementes que brotaram em nosso solo. Imigrantes espanhóis trouxeram seus cantes, toques e sapateados e aqui ensinaram sua arte.

O flamenco não escolhe DNA e brota de qualquer alma onde encontrar residência. O flamenco move muitas almas e muitos corpos brasileiros. Está espalhado por 19 estados do nosso país e tem importado dezenas de profissionais anualmente para cursos de aperfeiçoamento. Não há incentivo voltado para o flamenco porque ainda não foi feito um detalhamento de quanto se produz em torno dessa arte no país.

Mais do que o quanto movimenta materialmente, é fundamental levar em conta a criatividade que deve ser incentivada em torno dessa arte. A pesquisa de linguagem do flamenco nos corpos brasileiros ainda há de surpreender a comunidade de dança-teatro.

Hoje podemos dizer sem hesitação que existe:


UMBRASIL FLAMENCO







entre tantos outros






domingo, 6 de maio de 2012

FLAMENCO assassinado


Ontem, 05 de maio, estive na Feira Flamenca produzida pelas minhas queridas parceiras da Kabal. O evento está cada vez mais “profissa”: fiquei impressionada com o crescimento do comércio de roupas e afins. Acho que a maior qualidade do evento é a comunhão em si, ver tanta gente de grupos diferentes ali conversando, trocando idéias, trabalhos. Parabéns à organização e parabéns aos que participaram do evento, pois estão buscando uma integração importante pro crescimento da própria arte.

Essa integração inclusive foi um dos assuntos da mesa de debates que participei que tinha como tema a Ética no Flamenco e que acabou reafirmando a necessidade de maior integração entre a categoria “flamenca”.

Mas meu objetivo aqui não é falar da Feira nem da integração, e sim mostrar minha indignação quanto ao flamenco que assisti ontem. Antes de destilar minha crítica devo confessar que sou uma flamenca frustrada no sentido de ter dedicado vários anos da minha vida a essa arte, refletindo sobre ela, estudando, pesquisando e propondo caminhos, e ver ao final de tantos anos quanto o flamenco perdeu em qualidade e principalmente em criatividade.

Não entendo realmente, e sou amante dessa arte, como as pessoas conseguem ficar tantos anos fazendo a mesmíssima coisa!!!

É o flamenco que não muda ou são as pessoas que congelam ele?

Percebo que as pessoas que dançam flamenco estão totalmente despreparadas para o que fazem, seja pela falta de consciência corporal, pela falta de consciência cênica, de expressão, de energia, assim como pela falta de noção da própria arte flamenca.

Flamenco não é repetição.

Flamenco não é coreografia para simples reprodução. Flamenco é uma forma de ver o mundo e expressá-lo. Quando uma Rocio Molina aparece de calcinha e sutiã dançando flamenco ela não está inventando moda de figurino, nem mostrando as belas curvas; ela está discutindo seu mundo, propondo relações com o mundo que vive. Não é na roupa que está sua criatividade (porque nunca ninguém dançou assim vamos todos dançar de calcinha e sutiã), mas é na metáfora que propõe usando a roupa. Precisa ser artista pra entender como se faz isso!! Flamenco não é demonstração de passos feitos no ritmo!!! Acompanhados de cara dramática......

Passar o resto da vida dançando bailes de estruturas clássicas com vestidinhos de flores e sair por bulerias é congelar o flamenco e congelar a si mesmo!!! Vocês não se cansam? Eu estou de saco cheio de ver isso. “Ah mas são alunas”.... e daí? Alunas de que?

A estrutura de ensino do flamenco está uma tragédia!!! Ninguém renovou NADA. E não é pra renovar só pra renovar, nada disso porque assim fica pior ainda. É renovar porque o MUNDO mudou e como podemos expressar um mundo diferente do jeito que expressávamos há 20 anos? As danças estão alienadas do mundo em que as dançarinas vivem!!

Não vou nem comentar a tentativa de representação teatral poética que fizeram nesse dia pois me recuso; por que se metem a fazer algo que desconhecem totalmente?

O flamenco não é uma dança morta embora estejam fazendo de tudo para assassiná-la.

Nossa formação (a minha geração) em flamenco já era rasa, agora com todos os recursos que as pessoas tem com a internet, a vinda constante de profissionais e etc, as pessoas conseguem piorar o nível??? Que capacidade!!!

Ainda que alguns professores conseguem manter o nível técnico mínimo; dá pra ver no baile quem foi o professor.

Mas se a pessoa que está dançando não relacionar sua dança com sua vida, vira zumbi dançando flamenco morto. Onde o flamenco pretende chegar? Alguém se perguntou?

Há 20 anos atrás, não tinha internet, dançar flamenco era ir pra Argentina aprender algum baile, gravar em fita K7, e passar um ano dançando aquilo até ir pra Argentina no ano seguinte, ou dali 2 anos pra Espanha, e aprender outro baile. Aos poucos aquela geração começou a criar suas células de movimentos, uma letra aqui, uma chamada ali, os músicos arriscando falsetas. E depois de muitas idas e vindas pra Argentina e Espanha, trazendo raramente profissionais que tinham paciência com nossa brasilidade, a princípio argentinos e depois maestros como La China, é que aos poucos essa geração começou a ter condições mínimas para criar seus próprios bailes sem fazer tremer nos caixões os antepassados do flamenco (se é que não tremeram).

Os anos se passaram e o mundo mudou muito. Todos tem acesso a tudo. Bailarino espanhol implora vir ganhar dinheiro no Brasil e as dificuldades diminuíram muito. E como tudo tem dois lados, assim como algumas coisas ficaram melhores outras pioraram bastante.

Com tanta informação era lógico que a qualidade técnica melhorasse, mas não aconteceu porque com tanta informação agora todo mundo dança qualquer coisa sem critério. Pra repetir passos não precisa realmente pagar uma professora duas vezes por semana, é só ligar o Youtube, sai mais barato!

Com a globalização era lógico que o estudante de flamenco ou profissional adquirisse conhecimentos mais diversificados, de outras danças, outras linguagens, informação sobre corpo, fisiologia, enfim, etc, etc, etc.

Mas as aulinhas de flamenco continuam as mesmas?

Esse dias fui na escola do meu filho, ensino fundamental e vi que uma aula de historia não tem mais um professor falando, escrevendo na lousa ou lendo o livro didático; o cara abaixa um telão e com seu laptop  ele abre vídeos do Youtube pra explicar a pré-história; anota as informações do aluno no ipad dele que calcula os pontos do trabalho, da prova, da participação... e meu filho faz lição no Google, trabalho em grupo pelo facebook, ou vê via satélite no Google maps o que é uma estepe, savana ou floresta tropical, para aula de geografia!!!!

Isso é só um exemplo de como um professor dessa área foi obrigado a mudar sua linguagem para dar uma aula “pré-historica”, e o quanto de recursos pode ter para que o conteúdo seja assimilado de outras formas!!!!!!!!!!

Voltando para aulinhas de flamenco: não há como estabelecer novas formas de relacionar sua dança com sua vida se isso não começar pela sala de aula, por como vc TROCA o conteúdo com seu aluno. Ficar diante do espelho passando bailes sempre, só mudando o baile é ter morrido e esquecido de deitar!!! E olha que nem estou discutindo a partir dos novos conceitos da didática que discute que o ensino deve ser uma troca de saberes e portanto o flamenco deveria ser resgatado e não ensinado..... mas vamos pular essa parte por enquanto.

É fundamental relacionar-se com o mundo. Precisa passar bailes do Youtube na aula para se modernizar? NÃO. Sim e não. Passar bailes do Youtube na aula ou indicá-los para os alunos é o MÍNIMO indiscutível. Mas é preciso passar vídeos do Youtube sobre tribos africanas do Zimbabue (chutei qualquer coisa) que fazem rituais de acasalamento batendo os pés. É preciso mostrar danças indianas, cantos judaicos, ritos de passagem indígenas... ouvir músicas de outras etnias tentando marcar com as palmas seus ritmos... discutir dança contemporânea e seus caminhos, ver Martha Graham, Pina Baush. Fazer aulas de consciência corporal e ver vídeos sobre o funcionamento da coluna, dos pés, dos quadris.... um workshop de pranayama e discutir a respiração na dança, não só pra não sufocar (flamenco adora dançar sufocado) mas também para integrar o movimento ao espírito!!!!!!!!! Enfim, nosso mundo hoje não segue uma linearidade, estabelecemos relações descontínuas, aos saltos, plurais.

Um bailarino hoje tem que estar eletrizado por questões étnicas na dança; não é mais foco de estudo o que aconteceu com os ciganos quando nasceu o flamenco. Isso é “book one”. As questões se universalizaram. Enquanto vocês se preocupam com o som do tacón na madeira, o Galván está dançando sobre uma chapa de metal!! Por que? Alguém se perguntou por que ele mudou de chão? Não é um efeito visual ou sonoro como a Eva faz dançando na chuva. Não. É uma discussão com sua realidade, urbanidade. Ou dançar sobre areia.... Ele se sentou para pensar qual é o novo chão do mundo moderno pra ele colocar no seu show? Talvez sim, talvez não, tanto faz, ele está vivo e se relacionando com o mundo externo e interno dele e, portanto CRIA a metáfora intuitivamente. Como dançar uma seguiriya dentro de um caixão!!

Insisto: entrar numa sala, repetir bailes, diante do espelho está transformando bailarinos flamencos em esteriotipos; daqui a pouco vão dançar o lago dos cisnes por martinete!!! Tem a parte técnica que precisa ser repetida incansavelmente sem invenção nenhuma? Claro. Mas estudar técnica hoje tem muitos caminhos mais integrativos, holísticos.

Não estou dando fórmulas ou soluções, dei alguns exemplos apenas porque as soluções vão surgir de reflexões sinceras, da destruição de padrões de comportamento, destruições doloridas, desapegos. As soluções nascem do medo, do ERRO, como já discuti em outra oportunidade. E aqui não me refiro só aos bailarinos mas aos músicos também. Não só ao trabalho como professores, mas como profissionais. A todos nós que pensamos e fazemos flamenco.

Não finjam que é assim porque o aluno iniciante precisa disso. É assim porque poucos entre os profissionais de flamenco no Brasil são artistas, famintos, expressivos e competentes. Olhe para seus alunos dançando e SE responda: você tem orgulho do que estão fazendo? Sem dar desconto porque são iniciantes: tem orgulho? Olhe para seus alunos avançados, neles está você, seu trabalho. Compare para crescer, não para disputar. Busque novas informações, crie grupos de estudos, não transforme seu trabalho com flamenco apenas num "ganha pão". E se quiser que seja só isso então só deixe suas alunas dançarem para o papai, a mamãe e o namorado. Não precisa ser profissional para fazer um bom trabalho com flamenco, com decoração ou vendendo pregos!!! Precisa levantar do caixão e voltar a viver!

Perdóname.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O FLAMENCO NASCE DO ERRO

"quise trabajar sobre el error, para poder equivocarme"

ROCIO MOLINA em "Cuando las Piedras Vuelen"


Uma moça jovem numa arte carregada de ancestrais. Inovar no flamenco é quase um suicídio profissional, mas de quando em quando aparecem almas antigas em corpos novos para perturbar os que estão acomodados e tremer os pilares estabelecidos das convenções. Esse é o fogo flamenco: a rebeldia.

Israel Galván, Rocio Molina são dois exemplos dignos dessa responsabilidade. Resgatam para o flamenco sua profunda essência da improvisação, do inesperado. Não dessa improvisação empoeirada, pré-formatada que enterra o frescor da alma flamenca, não. Resgatam e renovam o sentido do duende lorquiano, aquele fogo invisível que se apodera do ser e o finca violentamente no momento presente. Não há passado e nem futuro para o momento flamenco e este é o sentido supremo da improvisação. Não há regras da ancestralidade que se sobreponham ao artista que sente. A ancestralidade não vem pelo sangue, não vem pela forma, só pode ser resgatada pela alma somada à inteligência.

A improvisação não é um jogo artificioso de estruturas pré-estabelecidas que são escolhidas de pronto pelo artista. A improvisação é muito mais do que isso: é o mergulho no vazio, onde as estruturas são esquecidas completamente para que ressurjam inesperadamente solicitadas pelo desespero da alma buscando expressão, pela sagacidade da inteligência buscando caminhos que resgatem à luz. No vazio de si mesmo, no vazio do próprio flamenco. Quem escolhe, quem cria, não é a mente do artista que ali atua apenas para lapidar o fluxo que jorra. A obra se cria através do artista, mas apenas naquele que aceita e compreende o sentido da CRIAÇÃO.

Criar é errar sempre porque é morrer.

Nosso conceito de criação é fruto de uma ideologia monoteísta e maniqueísta. Em nosso conceito de criação há o certo e o errado e o certo é bom e o errado ruim. O certo prevalece e é determinado por algum tipo de PODER. Mas a arte é por essência subversiva e quando se submete ao poder perde sua luz, desfalece suas forças. O falso artista, busca acertar porque caminha focado no resultado, no entretenimento; ou foca no interior e projeta sua fantasia. O artista criador foca nos dois mundos ao mesmo tempo, pois só assim se torna presente, e só quando consegue se colocar nesse “meio” dos mundos, que é o tempo presente, tem acesso ao inefável, ao inconsciente. Nesse “lugar” não há certezas, o belo é torto, a verdade está na morte, o caminho não existe antes dos pés.

A arte nasce do erro e no flamenco não é diferente: sua temática é o erro humano, nossas desmedidas, nossas deformidades. Não haveria cante flamenco num coro de anjos porque é uma arte humana essencialmente. E como podemos querê-la controlada se ela vibra no descontrole da alma rebelde? Como podemos querê-la simétrica se expressa as diferenças? Perseguir modelos não é criar, é, no máximo, representar. O flamenco não permite representação. Nenhuma arte permite, mas o flamenco se fez dessa transparência, dessa autenticidade.

O nosso flamenco tornou-se repetitivo e morto. O saudosismo de um tempo remoto dos grandes artistas paralisou o movimento natural autofágico que qualquer arte deve manter. Formas estabelecidas e reproduzidas, cansativas e de tão tediosas ficamos fascinados pela virtuose. Quando a arte se esvazia aplaudimos a superação do humano em performances de velocidade e contorcionismo como se flamenco fosse atletismo; atletismo da musculatura, atletismo da criatividade, atletismo do afeto...

A expressividade no flamenco tem que mudar para que sua essência continue florescendo. Os puristas se agarram às formas para manter as essências e isso não funciona. Esses novos flamencos agarram-se às suas inquietudes.

Uma geração de tentativas de mudança, da criação de novos caminhos deu as caras, nos estimulou, mas logo se perdeu nas próprias fantasias. Há que ter coragem para ser artista, mas há que ter muita coragem para ser flamenco. A coragem da pesquisa, a coragem de morrer sinceramente e não tentar mudar mantendo o status quo. Nem sempre é possível, mas é necessário.

A coragem de ser simplesmente quem se é realmente.


Linda entrevista com Rocio Molina: Rocio Molina


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Porque DANÇA FLAMENCA



A dança flamenca sempre serviu, e ainda serve, como “cartão postal” da cultura espanhola apresentada como manifestação folclórica daquele país.

Porém a Arte Flamenca nunca conseguiu manter-se na categoria de dança folclórica, pois não é só uma manifestação cultural estática; devido a sua amplitude, aos poucos foi sendo rotulada como dança étnica e, até hoje, é vista dessa maneira nos países estrangeiros à Espanha.

Uma perda para a dança contemporânea!

A Arte Flamenca não pertence a nenhuma etnia especificamente. Embora tenha nascido no sul da Espanha, na região da Andalucia, o FLAMENCO é uma manifestação de várias culturas integradas. A convivência sócio-econômica e cultural de alguns povos, entre eles árabes, judeus, ciganos de origem hindu, e o povo nativo da Andalucia, provocou essa manifestação cultural que não encontra parentesco em nenhum outro lugar do mundo.

Camarón de La Isla


Sendo uma cultura, ou expressão artística, proveniente da integração de várias culturas, de várias etnias, o FLAMENCO não pode ser enquadrado numa categoria de dança étnica, pois representa uma diversidade e não uma particularidade de qualquer etnia. A manifestação flamenca ficou por anos encerrada nos limites do sul da Espanha e sofrendo preconceitos dentro do próprio país; esse enclausuramento deveu-se tanto a uma iniciativa de apropriação dos próprios artistas flamencos, mais particularmente dos ciganos, quanto a uma falta de conhecimento da complexidade da arte flamenca, por parte dos estrangeiros.

No entanto, nos idos dos anos 70 e 80, artistas como Paco de Lucia, Camarón de La Isla e Antonio Gades, com a colaboração da arte cinematográfica de Carlos Saura e da indústria fonográfica, expandiram os limites dessa manifestação cultural, apresentando ao mundo o FLAMENCO como uma autêntica expressão artística que disputou reconhecimento, com outras manifestações já consagradas como o Jazz ou a dança clássica.


Bodas de Sangue de Carlos Saura

O FLAMENCO é uma técnica de música e dança extremamente requintada e tem um “código” expressivo próprio e desenvolvido.

Paco de Lucia e Camarón de La Isla


A complexidade da arte flamenca envolve uma integração definida entre música, dança e teatralidade dificilmente encontrada em outras manifestações artísticas. Em verdade a música flamenca, cante e toque, pode ser realizada independente da dança, mas o baile flamenco não tem essa possibilidade inversa; é determinantemente uma dança que se realiza acompanhada de música ao vivo, o que permite a constante improvisação e a torna absolutamente teatral. O que se pode encontrar diferentemente dessa estrutura é um estereotipo elaborado sobre a linguagem da dança e não uma representação de sua essência, ou, em casos específicos, uma releitura dessa linguagem.

Por estar a dança flamenca absolutamente integrada à música, e por essa música ser de natureza bastante expressiva, apresentando sempre uma temática desenvolvida pela poesia cantada, o baile flamenco manifesta um tipo de dramaturgia que o coloca na categoria de dança-teatro.

Às vezes mais poética e abstrata, ou em outras ocasiões mais comprometida com uma narrativa e até com a formalização de personagens, a dança flamenca é por natureza uma manifestação artística da DANÇA-TEATRO, dentro de uma linguagem própria e específica.

TORERO de Antonio Canales


O FLAMENCO espanhol criou uma geração de pesquisadores que vêm se dedicando a integração do FLAMENCO com outras linguagens. No caso da dança, por exemplo, vêm sendo desenvolvidas pesquisas que integram o FLAMENCO à dança moderna de Martha Graham




ou às aplicações processuais dos trabalhos de Pina Baush; muitas explorações foram e são feitas na aproximação da dança flamenca e do teatro formal, a começar por textos de Garcia Lorca, ou textos de teatro clássico, ou uma integração da dança flamenca à comédia dell’arte que foi encenada em Madrid em 2002.


"Rinconete y Cortadillo". Compañía Javier Latorre




Porque o FLAMENCO É DANÇA-TEATRO


Israel Galván no filme de Carlos Saura

O conceito de DANÇA-TEATRO vem sendo desenvolvido e modificado a partir das inúmeras experiências desenvolvidas em torno do assunto.

Rudolf Laban e Pina Baush tornaram-se os representantes das primeiras iniciativas de categorizar uma expressão cênica que não conseguia se restringir nem a categoria da dança exclusivamente, nem a do teatro.

Apesar de muitos ainda tentarem transformar o conceito de DANÇA-TEATRO ou TEATRO-DANÇA num código de movimentos ou de expressão fixo, e passarem a reproduzir mimeticamente os resultados da pesquisa de Pina Baush, por exemplo, a DANÇA-TEATRO pode ser encontrada através dos mais diversos códigos de expressão cênica.



CHANTA LA MUI

  
Não é possível determinar tão precisamente os limites dessa “categoria” uma vez que sua essência designa justamente o trânsito “livre” entre os limites do teatro e da dança, como eram vistos. Ou seja, a manifestação cênica que se coloca naquela região de intersecção entre o teatro e a dança acaba por propor uma abordagem de DANÇA-TEATRO ou TEATRO-DANÇA.

Talvez a inserção de textos poético/dramáticos na boca de bailarinos, talvez a composição coreográfica aplicada às ações de atores, ou um teatro sem palavras ou uma dança com personagens, enfim, muitas são as possibilidades que permitem a exploração dos limites entre as artes cênicas. Se a exploração parte do campo da área teatral em direção à dança parece encontrar a categoria de TEATRO-DANÇA, se acontece o contrário, é a dança que busca se apoderar dos elementos teatrais, ganha o conceito de DANÇA-TEATRO.


É como DANÇA-TEATRO que se caracteriza a dança flamenca. Não porque se assemelhe a qualquer iniciativa já encontrada nessa categoria, o flamenco vai de encontro ao conceito da DANÇA-TEATRO por sua própria natureza expressiva.


work in progress de Bailes Alegres para Pessoas Tristes



Mas apesar desse potencial o flamenco precisou amadurecer sua linguagem para que sua dança ganhasse a amplitude expressiva da DANÇA-TEATRO. Só na atualidade, no chamado flamenco moderno essa situação se concretizou.

Com certeza as tentativas de fusão entre o flamenco e outras linguagens da dança e da ação teatral, geraram tanto possibilidades mais híbridas para a dança flamenca, como também colaboraram no amadurecimento da própria linguagem de movimento específica do flamenco.

Israel Galván

Limites sempre tênues e relativos.


Israel Galván:

para os puristas um acinte,
para os inquietos um deleite...






domingo, 26 de fevereiro de 2012

As Origens do FLAMENCO

A primeira pergunta para se conhecer alguma coisa é tentar saber de onde veio como nasceu. É uma pergunta ingênua porque não se pode determinar o nascimento de nada sem congelar o tempo e fixar o movimento da vida em fatos; e como tudo que congela se descongela, assim que surgem fatos antes desconhecidos o gigante adormecido da história ganha vida mudando tudo de lugar.

No caso da cultura, manifestação da alma humana, é mais complicado ainda. É claro que existem sistemas de classificação que procuram enquadrar as manifestações culturais em datas, nomes e conceitos diversos. Mas, em vão.

Existem alguns, e cada vez mais, estudos sobre as origens do flamenco. Neles encontramos o flamenco como originário da mescla de praticamente todas as culturas que passaram pelo sul da Espanha, em todos os tempos. E assim é: olhando para o passado, todas as possibilidades de influência são significativas, mas fica impossível determinar o nascimento preciso dessa arte, e de qualquer outra. O que se pode concluir é que a origem do flamenco está no homem que, como em toda arte, tenta expressar seus sentimentos e suas experiências da vida. Por algum motivo, ou por vários deles, uma manifestação aparentemente folclórica, de cultura regional, ganha profundidade e alcança uma dimensão estética; desenvolve-se em técnica e expressão transformando-se em Arte.

Há quem diga que o flamenco começou como música cantada, dos lamentos e alegrias dos homens em trabalho ou até no ócio. Mas, conhecendo a expressão flamenca fica impossível imaginá-la isenta de movimento e dança. Talvez essa crença provenha do fato de que o baile flamenco, mais elaborado, revele-se tardiamente, porém é difícil imaginar que as pessoas se reunissem para cantar tão somente.

Um exemplo deste argumento está na informação sobre o nascimento do palo Martinete: diz-se que o martinete teria nascido dos cantos dos ferreiros em trabalho, talvez lamentando sua sorte. Recriando essa imagem podemos ver o movimento dos braços martelando as bigornas, ritmicamente; os troncos, suados, pendulando e fortalecendo os sons guturais; talvez um homem parasse de trabalhar para cantar o trabalho dos companheiros, e, talvez, esse homem acompanhasse as bigornas ritmadas, batendo um pé, ou suas palmas.... Vale lembrar Glauber Rocha no filme Ponteio, completamente sem falas, mostrando os pescadores trabalhando: eles cantam ritmicamente para tornar fluente os movimentos da rede de pesca, que puxam com uma cadência dançada, fundamental para o bom resultado da atividade conjunta. E emprestando as ideias de Rudolf Laban enxergamos os movimentos físicos de qualquer atividade humana como uma dança porque o homem necessita do ritmo para existir e o “trabalho” é expressão dessa necessidade (pelo menos antes da sociedade de consumo). Em que momento essa necessidade, inevitável, humana, se transforma em manifestação artística?

Ou outro exemplo comum em muitas culturas, nas manifestações religiosas, quando o homem louva aos seus deuses em cantos e danças. Ou ainda, as festas nos lares, com as famílias reunidas cantando e dançando.

O que importa, talvez, é saber por que no sul da Espanha, essas manifestações ganharam tais tonalidades musicais e características expressivas? Voltamos então às influências dos povos, migrantes ou não, conquistadores ou não, antigos e modernos.

A mistura
Nem todos os ciganos são flamencos, porém os primeiros flamencos são os ciganos; talvez porque fossem oprimidos, talvez porque fossem pouco eruditos e preservassem uma cultura oral e exclusiva. De qualquer forma estes ciganos dividem seu espaço e suas dores com outro povo que também é nômade e está sendo perseguido e oprimido: os judeus. E no mesmo espaço físico e metafísico ainda se misturam nativos da Espanha e mouros se revezando no poder e portanto se revezando na submissão. Houve um tempo em que judeus, ciganos e mouros escondiam-se nas curvas das vilas, nas cuevas, nas noites, nos vícios, nos medos, criando o caldeirão de onde o feitiço flamenco se aqueceria. Estamos falando sobre o flamenco puro; mas sua pureza vem de muitas raízes.

E onde deveríamos buscá-lo se sua árvore genealógica é completamente ramificada em variações numerosas, conforme as regiões pesquisadas? Existe algo essencial que permeia tantas possibilidades? O que é, afinal, "ser flamenco"?

Hoje fica mais fácil e mais difícil responder essa pergunta. Mais fácil porque temos cada vez mais registros de como ele aconteceu, pelo menos nos últimos 200 anos. Mais difícil porque o flamenco vem se diversificando e continua se transformando e, a partir dos anos 50, ganhou características expressivas, ou a partir dos anos 70 ganhando qualidades técnicas, que estabeleceram o flamenco como arte definitiva. O flamenco ainda está nascendo.

Mas se queremos reconstruir uma história então devemos retroceder realmente. Vamos pensar o que seriam essas origens voltando-nos para a essência. Encontramos dois caminhos de busca: interno e externo. Se retrocedermos pelo caminho externo, voltaremos ao passado caminhando na figura do tempo, revendo a história, relendo os fatos, o encontro dos povos; se retrocedermos pelo caminho interno, voltaremos ao fundo, ao "passado" na alma, além da figura do tempo, mas na tessitura do grande Tempo onde mora, tão bem expresso por Lorca, "la oscura raiz do grito".

O flamenco nasce assim: AY!!!

Embora essa arte possa ser expressa na alegria, na diversão, na sedução, foi o grito de dor que cravou o flamenco no pneuma do universo. O cante flamenco desenvolveu uma capacidade de transformar a sonoridade do choro, do lamento e do grito em música; ou, visto de outro ângulo, esse grupo humano percebeu a musicalidade da sua própria dor. A técnica para cantar o flamenco, se é que existe, é a mesma para chorar; contraem-se os mesmos músculos e o mesmo intuito de se livrar do sentimento mobiliza a expressividade. O gospel talvez inspire alguma semelhança nessa conduta, esse canto que aparece em várias culturas em louvor do não humano também gerou muitas vezes uma expressividade profunda, ao contrário do canto europeu que desenvolveu uma técnica completamente afastada da mecânica da fala ou sonoridade cotidiana. Contudo o flamenco encontrou sua expressividade no cotidiano, no humano, na experiência comum, na dificuldade de viver simplesmente a vida e por esses elementos é muito comparado ao blues, esse gospel desesperançado; há teses para essa comparação.

E, como citamos, embora se reconheça o nascimento e a essência do flamenco no cante, sabemos que a voz é uma expressão corporal e que não podemos distingui-la do corpo como querem os racionalistas que pretendem que o conceito venha antes da vida. Não há distinção entre os gestos do cantaor e do bailaor, não há possível separação entre o baile e o cante embora sempre ocorram simultaneamente em corpos distintos. A musculatura que se contraiu em quem entoou o AY também contraiu lançou no ar os braços retorcidos, curvou o tronco amargurado e socou o chão de revolta. Quem pode dizer o que primeiro aconteceu? E se nesta noite foi este, na seguinte poderia ter sido aquele. Assim como não se pode distinguir esse “gesto” do rasgueio da guitarra, do compasso sobre a madeira.... a orquestra de pulsos que forma o flamenco, cante-baile-toque, não pode ser separada no tempo porque só as teorias é que necessitam de classificações, a vida não.

O caminho interno de nascimento do flamenco é o mesmo de todos os nascimentos: a respiração. As etnias que formaram essa arte: ciganos, judeus, mouros e nativos espanhóis, todas lutavam pelo mesmo objetivo: LIBERDADE. Assim a respiração flamenca não é o sopro que flui no alívio, no regorjeio de passarinhos que voam; essa respiração é entrecortada, sai em jorros como o sangue de um corte profundo, ou comprimida por uma garganta sendo sufocada, ou ansiosa pelo pulso acelerado de quem sente medo, ou uma respiração em que a violência arranha de revolta as rotas de fuga, e tantas outras imagens tão características.

A origem do flamenco é missionária: se por um lado essa arte resulta da mistura, da convivência das diferenças, por outro prova a capacidade humana de re-encontrar a semelhança, a essencia. Mostra que nossas diferenças são apenas variedades da mesma música e que essa variedade deve ser tanto valorizada como suprimida, uma coisa E a outra.

É da SOMA que se faz o mundo!!