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segunda-feira, 16 de julho de 2018

NATUREZA MORTA


A arte morreu?

Não, não temos o poder de eliminar nem a arte, nem a natureza, nem o devir, nem o desejo, nem a realidade.

Mas temos nos exercitado muito no desenvolvimento de um poder, ressentido, de sufocar a arte naquilo que ela tem de intensivo, fingindo que ela é extensiva.

A arte continua brotando porque ela é quase como o ar de sobrevivência do ser humano. Ou ela é o próprio ar que depois que se inspira se expira.

Mas assim como o desejo que não cessa de se criar, a arte também é cooptada a todo instante. Está cada vez mais difícil produzir fora do alcance da cooptação do poder. No mundo em que estamos inseridos, na loucura da maquina destrutiva de vida do capitalismo, assim que algo se cria imediatamente se torna produto. No mal sentido desse sentido.

Aliás, antes mesmo de ser criada, a criação já está capturada porque os meios de produção estão sob controle. Materiais e imateriais.

E se algum respiro fora do esperado eclode, um pernicioso processo se instaura imediatamente para esvaziar a intensidade da criação tornando-a apenas mais uma forma. E glorificamos a forma como se ela fosse o sinônimo do ato criativo, sendo que esse já não se faz mais presente. No instante em que glorificamos a forma estamos justamente a esvaziando de sua intensidade. Estamos muito bem treinados para colaborar com nossa própria escravatura.

A única possibilidade de sobrevivência de uma zona de criação é desinformar a forma antes dela ser esvaziada, para que ela não se separe, não se distinga da intensidade da qual participa. Ou antes, percebe-la como intensidade. Não separar mais a forma do seu conteúdo, o corpo do seu espírito, o acontecimento do seu devir, o desejo do seu sujeito, Deus da existência.

E o que o artista de hoje não sabe é justamente ver a forma de forma indistinta da intensidade, já que ele se tornou, justamente, o criador de formas. O reprodutor de ideais, quando não das convenções e dos hábitos, reprodutor dos ideais esvaziados de existência, carregados de verdades, mais socialistas, mas ainda verdades.

Nem a performance, o eventual, mantém sua eventualidade porque o próprio artista já é o passado do que deveria ser. Por mais que ele acredite estar criando no momento presente, e está, ele cria a partir das suas marcas, das marcas e ressentimentos coletivos. É um reprodutor, muito longe de ser um criador.

Nem o teatro, a arte do presente por excelência, da efemeridade, encontrou sua desterritorialização, trancado nas salas de espetáculo, amarrado aos textos, às convenções do existir de pessoas impotentes.

E mesmo se toma as ruas, se se entrega aos improvisos, se tenta imaginar novas existências, perde o único instrumento de que se valeria para ser teatro: o acontecimento. E por acontecimento não podemos nos iludir em encontros e diálogos vestidos pela hipocrisia da qual sequer conseguimos nos despir.

Carregada de sentido, significados e intencionalidade a arte se afoga em seus lamentos, evapora no fogo de suas reatividades e se perpetua, inevitavelmente, impotente.

Não à toa ainda se vê arte justamente nos pontos mais distantes das galerias, das academias, das livrarias, das cidadanias...

A lógica é simples: não tem como a arte ser viva onde a natureza está morta.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

UMOJA, uma comunidade sem homens.

Então, há mais de 20 anos, um grupo de mulheres no Quênia, cansou de ser estuprada, espancada, mutilada e submetida às normas patriarcais da sua comunidade. Fugiram, lideradas por Rebecca Lolosoli, uma das tantas mulheres mal tratadas. Fixaram-se num pedaço de terra desprezado pelas péssimas condições de sobrevivência e sobreviveram.

Criaram Umoja, uma comunidade onde homens são proibidos, a não ser os nascidos ali, e que respeitem as regras da comunidade. Sem hierarquias, apenas sob a liderança de Rebecca, construíram suas casas e um centro cultural onde vendem seu artesanato para sobreviver. Conseguiram replantar naquela terra e enviar seus filhos para escola, o que não era possivel na comunidade de origem.

Hoje lutam por direitos civis e tornaram-se referência para muitas outras mulheres da região e pelo mundo. Publico dois pequenos artigos e um belo video delas cantando. O possível nascendo do impossível.


video

Artigo na Revista Galileu

Artigo de Walter Passos

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Discurso de Luiz Ruffato na Feira do Livro de Frankfurt

"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...


Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora."

Luiz Ruffato

discurso proferido na abertura da Feira do Livro de Frankfurt

quinta-feira, 6 de junho de 2013

INDIOS BRASILEIROS E A DEFESA DA CULTURA


Quem dá sua vida pra preservar sua Cultura sabe o valor de existir!!! Quem vende sua cultura pra sustentar sua vida não conhece o sentido da sua existência!! Na sociedade de consumo nossa cultura vira produto, e como tal é submetida às regras do mercado; já não é mais cultura, é entretenimento, palhaçada, picaretagem, qualquer outra coisa menos Cultura. Na sociedade de consumo ficamos paralisados, estamos mortos, porque um povo que não pode expressar sua cultura não existe. É disso que os indios estão falando, é contra isso que estão lutando. Podem se adaptar, claro que podem. Mas não podem se desculturalizar, ou percebem que vão morrer. Não estão brigando por "terra" no sentido de propriedade econômica como a vemos hoje. Estão brigando por terra no sentido de propriedade cultural. Os índios brasileiros são hoje a mais contemporânea manifestação social dos conflitos éticos ( e não apenas etnicos) a que a sociedade de consumo chegou!!! Conseguir INCLUIR esses povos nessa sociedade confusa e desorientada em que vivemos é nosso grande desafio. Estar surdos aos seus reclames é infertilizar nosso futuro. PRECISAMOS PERCEBER A GRAVIDADE DO CONFLITO PORQUE NOS AFETA A TODOS DIRETAMENTE. E, PIOR, PRECISAMOS ENFRENTAR NÃO APENAS O AGRO-NEGÓCIO E O GOVERNO MAS O PRECONCEITO CONSERVADOR QUE ESTÁ INFILTRADO ENTRE NÓS. ESCLARECIMENTO É A MELHOR ARMA CONTRA O PRECONCEITO.






quinta-feira, 31 de maio de 2012

Descentralização da Cultura

A solução SEMPRE é a descentralização e não o contrário, e na Cultura não pode ser diferente; aliás centralizar cultura já é contrassenso, já é desconfiável por natureza. Na real, não deveria nem existir MINISTÉRIO DA CULTURA, pra que? A ação cultural não vem de cima e se vem é porque não está existindo liberdade para que venha de onde é sua origem: PESSOAS. Cultura é a própria forma de respirar do povo, com suas diversidades. E quando falo "povo" falo todos nós, artistas e não artistas. É tão absurdo "dar" cultura quanto "dar" saúde.... isso não se dá a ninguém. O que um governo deve fazer é disponibilizar as condições para que seu povo pratique a cultura que já expressa, para que pratique saúde. É totalmente diferente de ficar dando remédio pra doença, ficar dando espetáculo pra falta de manifestação..... o conceito tá invertido porque vem emprestado da ditadura. Saímos da ditadura mas continuamos raciocinando como se estivéssemos nela!!!!!!!!!

Contra as leis de incentivo à cultura de Zé Rodrix

Há quem tenha se espantado com minha posição contraria às leis de incentivo, Rouanet, etc..., me pedindo explciações de forma muito intensa. Explico, mas devo começar dizendo que a minha atitude anti-Lei Rouanet é uma atitude pessoal, fundamentada na Ética mais comezinha, que tem me guiado na maior parte da minha vida adulta, e sem nenhuma ligação com qualquer movimento partidário, ideológico, político ou mesmo cansado. Também nunca fiz uso de nenhum privilégio, lei ou verba pública, por ser um crente absoluto que a minha arte é problema meu e, se eu não estiver disposto a empenhar a minha própria alma na sua realização, ninguém poderá fazê-lo por mim. Da mesma forma, não pretendo em hipótese nenhuma fazer uso de dinheiro público no financiamento daquilo que é minha responsabilidade pessoal.

Durante toda a minha vida acreditei, como acredito até hoje, que o dinheiro de TODOS não pode e não deve ser usado no financiamento da aventura pessoal de alguns, a não ser que o resultado do uso deste dinheiro seja devolvido gratuitamente para o proprietário do dinheiro, o povo, na sua totalidade. A crueldade política que leva o Estado brasileiro a repassar para o mercado a responsabilidade sobre o uso dos impostos é extremamente daninha, a meu ver, e o próprio mercado tem-se visto em palpos de aranha para não apenas realizar mas também justificar o seu papel de substituto do Estado, este Leviatã que apenas chancela as escolhas que o mercado fizer sobre o uso do dinheiro público, dando seu aval para a renúncia fiscal que está no fundo de tudo isso.

A renúncia fiscal começou na Inglaterra vitoriana, quando o Imposto de Renda começou a ser cobrado dos mais ricos, e estes, insatisfeitos com isto, propuseram que o dinheiro que deviam fosse usado no erguimento de necessidades culturais para o povo inglês. O governo, ele mesmo formado por muitos desses abonados, encampou a proposta, e o dinheiro dos impostos, através da renúncia fiscal que o governo aceitou, começou a ser usado para erguer monumentos e financiar eventos culturais. O mais estranho é que estes monumentos culturais só serviam aos donos do dinheiro, isto é, aos mais abonados, para quem o dinheiro dos impostos passou a erguer museus, teatros, universidades, sem que o povo, depositário legal do dinheiro devido, tivesse nisto qualquer vantagem. Esta crueldade fiscal se espalhou pelo mundo, por interessar profundamente às classes dominantes, e no Brasil, a partir dos contubérnios inexplicáveis entre Estado e artistas iniciados durante a DItadura Militar, foi-se criando entre nós a crença inabalável de que o dever do Estado é sustentar a Cultura. Sendo isto verdade, pergunto se a Cultura tem mesmo sido sustentada, ou o que o Estado sustenta são manifestações artísticas que, como bem o diz Luis Carlos Barreto, "são formas artísticas e comerciais de usar aspectos da cultura nacional, coisa bem diferente da Cultura".

Baseando-se nisso, hoje tudo corre o risco de ser sustentado pelas verbas públicas, bastando para isso pespegar-se-lhe o carimbo de "Manifestação Cultural" e correr atrás de um patrocínio. Não tem havido muito cultura nestas realizações, mas sim uma maior ou menor qualidade artística, que pode ou não dar lucro, na exata medida do interesse que desperte em seu público. A distorção que nos leva a chamar de Cultura qualquer ação artística, tenha ela ou não fundamento e/ou valor cultural, é o que sustenta este financiamento ( a meu ver ) desonesto a que alguns têm acesso, em detrimento de todos, até porque raréssmos são os que conseguem ter acesso às verbas ou ao resultado de sua aplicação.

O sistema de renúncia fiscal que está por trás das Leis de Incentivo Cultural, portanto, é incorreto em vários sentidos, não apenas no privilégio que cria, dividindo os brasileiros entre merecedores e não-merecedores de financiamento público, mas também na forma como inverte os papéis do Estado e do mercado, transformando o mercado em distribuidor de dinheiro público e o Estado em financiador de empreendimentos particulares. Houvesse seriedade de propósitos, cada parte estaria fazendo seu verdadeiro papel, e não se substituindo no processo, gerando incompetência, privilégio, mal-estar e perpetuação de uma classe específica no acesso ao dinheiro público.

Na verdade, todos se privilegiam deste projeto: os artistas, que conseguem financiamento sem custo para suas obras, realizando-as sem que tenham necessidade do aval do público, já que nascem completamente pagos e ainda podem, graças às bilheterias, maximizar seu lucro pessoal a partir do dinheiro público que lhes foi doado: o mercado, que em vez de investir dinheiro verdadeiro, se privilegia do imposto que deveria pagar, direcionando-o às obras artísticas que melhor retorno mercadológico lhe derem e usando-o como se fosse investimento em si mesmo: e o Estado, que se faz de mecenas para os que lhe interessam pelos mais diversos motivos, usando para isso o dinheiro público, sem determinar com clareza quem é o dono das verbas investidas, mas permitindo que os que chancela a partir da escolha do mercado se tornem depositários do direito de ganhar sem investir.

Hoje em dia os produtores"culturais" não são verdadeiramente pessoas ou empresas que invistam de si ou do seu na realização de obras artísticas, mas sim aqueles que, conhecendo os meandros das leis de incentivo e sabendo de onde tirar dinheiro e a quem oferecer seus produtos, têm acesso a este tipo de dinheiro público como forma de iniciar uma atividade sem custo, tornando-se daí em diante os donos dos lucros que este investimento lhes der. O mais interessante é que todas as partes do processo, Estado, mercado e artistas, fazem questão de nos informar o quanto conseguiram e de que maneira este dinheiro está sendo gasto, MAS NUNCA NOS INFORMAM O QUANTO LUCRARAM COM ELE. Da mesma forma, mesmo tendo lucrado o suficiente para justificar uma nova produção, desta vez com seu próprio dinheiro, acostumam-se ao jogo e em breve novamente recorrem ao dinheiro de renúncia fiscal para um novo "investimento" sem ônus, lucrando ainda mais com ele. Ou seja: socialismo de Estado na hora do investimento, capitalismo selvagem na hora do lucro.
Ou isto se torna passível de ser praticado por TODOS, que são os donos do dinheiro publico, ou permaneceremos perpetuando este privilégio sem qualquer sentido ético: quando determinamos fontes de dinheiro exclusivas para investimento nestes produtos ditos "culturais", também estamos determinando um grupo específico de agentes que farão uso dele, exatamente aqueles que, graças a seus nomes e talentos, darão ao mercado o melhor retorno possível. Ora, havendo possibilidade de retorno por parte destes nomes e talentos, deve existir público suficiente para, por sua própria vontade, sustentar-lhes as ações e artes: se não existe este publico, seus nomes e talentos decerto não são suficientes para merecer os financiamentos a que tem feito jus, privilegiando-se do acesso ao dinheiro público mas nunca revelando o quanto ele rende quando se torna privado.

Um contra-senso, um paradoxo, um Catch 22. Os que defendem a continuidade desta política de investimento público para gerar lucro privado, sempre serão os que, graças a seu nome e talento, ocupam hoje a posição de determinadores de objetivo, ou seja, tornaram-se aqueles que dizem para quem o dinheiro deve ser dado. Interessante posição, mas a meu ver indigna, porque serve apenas para perpetuar o uso incorreto do dinheiro público, tornando-se plataforma de poder pessoal na distribuição das verbas e na definição do que seja ou não "cultura". Em países mais civilizados o subsídio a estas formas de arte sempre inclui sua distribuição gratuita para o público, porque no investimento existe a exigência de devolução do que é publico a seu verdadeiro dono: ninguém cobra entrada em espetáculos publicamente patrocinados. Aqui, tudo se cobra, e nada se devolve.
Esta, a meu ver, seria a única justificativa para o investimento de renúncia fiscal nas artes: que seus resultados fossem devolvidos ao público ( seu financiador ) de forma gratuita, ampliando o acesso a elas em vez de privilegiar este acesso apenas aos que, estando em classes melhor aquinhoadas financeiramente, possam pagar novamente por um produto artístico que já financiaram com o dinheiro de seus impostos. O público que não dispõe de dinheiro para pagar a entrada, e que é a grande maioria, já pagou antecipadamente, através de seu imposto, mas nunca terá acesso aos produtos que seu dinheiro financiou. Crueldade fiscal e ( aí sim) cultural, porque quem verdadeiramente necessita e merece arte é exatamente quem não tem acesso a ela, e o dinheiro público, por definição, deve ser usado primordialmente na satisfação desta necessidade absoluta.

Paulo Autran sempre dizia ter saudade do tempo em que o investimento numa produção teatral era feito a partir de dinheiro real levantado em um banco, como empréstimo, e pago com os frutos da bilheteria, da qual todos dependiam. Hoje em dia, graças a Leis de Incentivo, o resultado de qualquer produção não tem mais importância: na maior parte das vezes, o lucro dos "produtores" já está garantido pelo investimento público, e o resultado da bilheteria, se houver, só serve como "plus', nunca sendo usado nem no ressarcimento público ao verdadeiro dono do dinheiro, nem no reinvestimento na própria obra. 

Explicar o uso de leis de incentivo pela necessidade, sinto muito, não me convence: quem quer abrir um circo precisa pelo menos comprar a lona. Se não tiver lona, não tem circo. Da mesma forma a arte brasileira; se não existe por parte dos artistas a capacidade de realizar suas obras, que não as realizem. Assim é a vida, e cada um deve se responsabilizar pela sua própria, sem impor esta responsabilidade sobre nada nem ninguém. Hoje em dia, não satisfeitos com a compra da lona, já pedem que o governo compre as entradas, para que não apenas o investimento mas até o lucro de bilheteria seja certo e seguro, como se o risco da arte não fosse mais um ingrediente essencial para a sua existência. A desculpa? " Precisamos criar mercado e público...". Não vão consegui-lo assim: só terão cada vez mais obras sem interesse público sendo pagas com dinheiro estatal, todos felizes, mas sem nenhum resquício de arte.

Como em qualquer país civilizado, existem a arte subsidiada, com objetivos culturais específicos, e a arte privada, nascida de investimentos privados e com o objetivo claro do lucro honesto que conseguir ter: no Brasil, graças a esta prática da confusão entre mercado e Estado, e ao privilégio dos que nela se perpetuam, as duas se confundem, havendo cada vez menos investimento real em arte, já que todos preferem ganhar sem investir. Ah! se os que hoje distribuem dinheiro público através de suas empresas soubessem do lucro possível que uma produção artística pode gerar! É certamente um mercado tão arriscado quanto a Bolsa de Valores, mas quando rende, rende muito mais que esta, sendo este lucro o único motivo possível para que tantos profisisonais da área nela permaneçam, mesmo repetindo o tempo todo que seu oficio é mau em termos de retorno financeiro.

O Brasil tornou-se, nos últimos anos, uma meca para investidores artísticos dos mais diversos tipos, que reconhecem em nosso público um mercado de imenso potencial para seus produtos, e tanto que a cada dia mais e mais empresas estrangeiras se fixam em nosso país para investir e ganhar dinheiro com suas produções artísticas em todos os níveis, sem precisar se privilegiar de incentivos culturais nem renúncias fiscais, reconhecendo o potencial comercial da arte em nosso país. Porque isso é impossível para investidores nacionais? Simplesmente porque estes investidores não tomam conhecimento das possibilidades de lucro que um investimento em produtos artísticos pode dar, que costuma ser tão bom ou melhor que o investimento em produtos industriais ou no mercado de capitais. Se soubessem, haveria, como em qualquer parte do mundo, inúmeros investidores dispostos a colocar dinheiro REAL em produtos artísticos e até mesmo culturais, correndo com eles o mesmíssimo risco que correm com seus outros investimentos.

O equívoco, se houver, começa por nós, a classe artística, permanentemente dispostos a nos vender como mendigos inconscientes e irresponsáveis, exigindo de quem tem a esmola que nos sustentaria em indignidade e privilégio, arrastando pelo mundo nossas patéticas figuras de pobrezinhos, pedindo a qualquer momento "me dá um dinheiro aí". A meu ver, como tenho praticado durante toda a minha vida artística, nada melhor que um sócio financeiro que acredite em nosso projeto e o sonhe conosco, participando dele em todos os sentidos, tornando-se responsável não apenas pelos resultados mas também pela sua continuidade. 

O que o Brasil precisa hoje, nas artes e na cultura, é de investidores conscientes, para gerar público consciente, o que gerará uma arte cada vez mais consciente por parte dos artistas. Não existe nada melhor que a realidade dos fatos para gerar consciência e responsabilidade, e um mercado artístico verdadeiramente existente liberaria o dinheiro público para ser aplicado em áreas de importância cada vez maior: Educação, Saúde, Infra-estrutura, etc.. 

O que advogo é uma responsabilidade pessoal e de classe cada vez maiores: se não formos competentes o suficiente para sustentar nosso ofício de artistas, aglutinando em torno dele não apenas investidores que acreditem na sua realização mas também público que o sustente, nosso oficio nada vale, e seremos os eternos mendigos da Cultura, como temos sido, pedindo uma verbinha aqui, um patrociniozinho ali, um subsidiozinho acolá, exibindo nossa incompetência empresarial, esta que certamente prejudica em muito a nossa excelência artística, e sendo cada vez menos livres, porque as leis que estabelecem o uso de dinheiro público para a realização de obras artísticas acabam privilegiando apenas os interesses do Estado e do mercado, e nunca os verdadeiros interesses da arte e dos artistas.

Toda consciência significa liberdade, e a minha em nenhum momento, neste caso específico, tem o poder de mudar o sistema pelo qual os artistas tem conseguido suas verbas: eu inclusive, com minha recusa de participar simplifico-lhes a vida, porque sou menos um a tentar pegar a graninha da renúncia fiscal como investimento inicial em minha própria aventura. Da minha parte estarei sempre em busca de investidores reais e tão conscientes quanto eu, a partir dos quais se possa criar um verdadeiro mercado artístico nacional, como já houve, servindo ao público, como já servimos, e finalmente acrescentando à Cultura ( agora, sim!) a nossa contribuição claramente reconhecida e honestamente gerada, sem privilégios de classe nem uso indevido de dinheiro público.

Zé Rodrix


(texto escrito em 2007, autor falecido em 2009)










e nada mais.