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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

FILÓSOFOS PRÁTICOS

O que alguns filósofos práticos, chamados nomades, vem dizendo por aí é que os deuses nao param de morrer e mesmo assim ninguém quer mudar.
Há uma falencia dessa vida dedicada aos ideiais platonicos, aos conceitos universais, aos absolutos fora da existencia, e todo mundo tá afundando junto, com medo do singular e do comum.
Certas narrativas sobre a humanidade estão destruindo a humanidade e a culpa ainda recai sobre os demonios, nunca sobre os próprios deuses.
Esquecemos que narrativas são narrativas. Inclusive sobre os deuses.
As pessoas estão de tal forma submetidas a teses, a teorias, a narrativas, a ideologias, enfim, crenças, que abandonaram completamente a vida em nome de algo fora dela, acima, transcendente.
Da vida como existencia pura, sem tese, imediata, foi tirado o valor, por um único motivo: é a vida real, a vida potente.
Fica essa luta insana para enfiar na vida uma tese da vida, enfiar na vida um conjunto de normas de como a vida deve ser. Quanta arrogância!
E a vida passa livre porque é informatável.
Mas os humanos viram esses miseráveis, separados do que são, separados do que podem, desesperados por poder, atormentados por sua pior criação: o juízo.
Enquanto houver julgamento sobre a existência, juizo de valor e intencionalidade nas ações, ficaremos assim: famintos de vida, pedintes de amor, doentes por saúde, vazios de desejo, movidos pelo ressentimento e pela culpa ( má consciência).

Farrapos humanos.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

VONTADE DE ESTADO


O Estado não existe. É um nome. 

O nome que damos a uma instituição que inventamos, mas ele em si não existe. Pelo menos não sem nós para inventá-lo.

Poderia se dizer que uma vez inventado ele passa a existir por si.

Mas não existe nada que exista por si se não em existência. Potência em ato.

Portanto, voltando, o Estado precisa de nós para existir.

Sendo assim, poder-se-ia supor que ele deixaria de existir se nós não o fizéssemos existir.

Mas para se desinvestir na existência de um Estado, de um tutor, de um legislador que, lembro, nós inventamos para nos tutelar, normatizar, normalizar, precisaríamos crer que não necessitamos de tutela, de norma, de normalidade.

E nos vemos tão pobres de potencia, de forças para a alegria, de capacidade de autonomia, que temos Vontade de Estado.

Aí não tem Cristo que dê jeito.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

SOMOS POLÍTICA


Sim, somos política, não políticos (pessoas em cargos de poder).

Proponho repensar a relação que fazemos entre o público e o privado, entre o íntimo e o aparente, entre o que somos e o que “performamos” ser.

Imagine que você é (se é que o verbo “ser” ainda tem algum sentido) apenas o que está em seu íntimo, dentro de você, seja lá o que “dentro” signifique.

Tudo que é apreensível pelo mundo, pelo outro, seu corpo, sua cor, suas ações, suas expressões, suas roupas, sua voz, seus intestinos, é, portanto,  a performatividade do seu ser no mundo.

E performar é diferente de ser (a realidade filosófica disso não importa, mas apenas o jogo mental que isso possibilita).

Qualquer parte sua que é apreensível pelo outro e se relaciona com ele é sua expressão pública, portanto, política.

Consideremos a mentira de que você tem uma alma, que seria seu âmbito privado, o seu íntimo. Seu pênis ou vagina, a tonalidade da sua pele, seus gestos, comportamentos, é tudo do âmbito público, justamente porque podem ser apreendidos e, portanto, são compartilháveis.

O que é de âmbito privado não pode ser compartilhado, pertence ao íntimo, à suposta alma.

Essa ideia de privado relacionada ao corpo (ou à casa, ou ao seu email) é uma tese imposta à nossa experiência da vida. Disseram a você que seu corpo é privado para que você o esconda, mas, de fato, ele é um fato social.

Oi? Então, meu corpo está à mercê da vontade alheia? Não faço dele o que eu quiser?

Faz e não faz. Faz, mas não está fazendo.

Para você fazer o que quiser com seu corpo, você depende de leis. Por exemplo: você não pode tirar um filho da sua barriga se a lei do seu país assim determinar, mesmo a barriga sendo sua. Você não pode arrancar sua orelha sem que seja internado (preso) num manicômio. Você não pode ir à qualquer lugar do mundo, ou andar nu pela rua. Você não pode tirar seu pênis e fazer dele uma vagina sem uma permissão legal para isso.

Para modificar seu corpo você precisa se adequar às leis, às normas. E leis são instrumentos de âmbito público. Seu corpo é público, está submetido a polis.

Uma moça nascida na Gâmbia antes de 2015 teria seu clitóris arrancado, independente da vontade dela. Foi necessária uma lei, que vigorou a partir dessa data, para que essa prática fosse criminalizada, já que a tradição assim permitia (outro tipo de lei).

Você pode argumentar que a luta pelos Direitos Humanos é justamente a de dar à vontade do indivíduo o poder sobre seu corpo (sua vontade não é o que você é, é apenas sua vontade). E mesmo que todas as leis do mundo permitam que cada pessoa decida por ter ou não um clitóris ou uma orelha (quem arranca a própria orelha sai da norma de sanidade), ainda assim essa possibilidade deve ser sustentada por uma legislação, ou seja, é definida pela polis, por isso se chama “direito”.

O corpo já é um ato político assim que você nasce. Você não pode existir sem que se relacione com o outro, com o mundo, com a polis. Aliás, essa é a condição inerente à existência.

Decidir quem manda nesse corpo, quais normas se impõem a ele (sejam jurídicas, religiosas ou científicas) é uma discussão pública, o que torna seu corpo política.

Já sobre sua alma, sobre o seu íntimo, ninguém consegue ou pode criar leis (embora a religião continue tentando!).

PS: se a alma é política ou não vou deixar pra outra reflexão, pois terei que me desfazer de todos os argumentos que vou sustentar agora.

Na verdade, não estou querendo diferenciar a alma do corpo, pois essa distinção é meramente fictícia e não real; ela só é realidade para as religiões. Mas servirá agora como linguagem (portanto ficção) para o entendimento entre algo que é íntimo em nós (tenha o nome que tiver: consciência, alma, espírito, psique, imanifesto, etc.) e algo que é acessível ao outro.

Mais importante do que tentar definir filosoficamente o que é alma ou corpo (tormento dos filósofos, não meu), é entendermos que nossa existência, em ato, é uma expressão política, aquilo que pertence ao âmbito da polis.

E por “ato” não estou me restringindo a ações e comportamentos, mas às expressões do ser que sejam apreensíveis pelo outro. O corpo é, portanto, um ato nesse sentido.

Tanto é assim, que nada em nosso corpo e na expressão dele está à margem do processo histórico.
Se você nasce com a pele de cor mais escura, dependendo da época e do país, sua vida será submetida a uma série de leis e comportamentos sociais.

Se você nascer com uma vagina na Idade Média, você terá uma vida diferente do que se você nascer com um pênis nessa mesma época.

Mas, independente da vagina ou do pênis, e da existência imposta a você em consequência disso, sua vida íntima não será regida por esses fatores. Será afetada, porém não regida, mesmo que você seja uma pessoa totalmente manipulável mentalmente.

Há controvérsias de várias ordens, mas elas não determinam o que você é. Determinam apenas o como você vive. (Como se houvesse distinção entre ser e existir, mas vamos fingir que haja).

O que você é? Não é nominável.

Só podemos nominar o que “performamos” ser.

Podemos dizer que você é homem, mulher, branco, preto, advogado, criança, idiota ou feliz.

Será que essas nominações não dizem acerca do que você realmente é? Ou dizem apenas sobre o que aparenta, sobre o que parece ser, sobre como você é “visto”, apreendido pelos outros, sobre a performatividade de sua existência no mundo?

Confundimos esses nomes, essas denominações, essa performatividade, com o que somos realmente.

Se você nasceu em 1764, na Inglaterra, com um pênis, disseram a você que você era um homem. Sua experiência íntima da existência não estava limitada a essa nomenclatura, mas sua experiência pública sim. Não importa o que você sentisse a respeito de si mesmo, sua relação com o mundo estava restrita ao que cabe ao homem ser, sentir ou fazer.

Já se você nascer com esse mesmo pênis na França em 2016, apesar de ainda ser considerado homem, a amplitude da sua relação com o mundo será outra. Você, por exemplo, poderá afirmar que é uma mulher, poderá trocar seu pênis por uma vagina e, assim, ganhará a denominação de mulher trans.

Nomes. Normas. Denominações.

Nada disso designa sua alma, sua experiência íntima de si mesmo, apenas sua experiência pública, sua expressão social, os sentidos atribuídos ao que você é.

Os sentidos atribuídos ao que você é não são você.

A esses “sentidos atribuídos” vamos dar o nome de performatividade.

Um corpo perfeito e capaz é uma performatividade.

Se você não tiver os braços e ainda assim fizer belíssimas pinturas com os pés, você será considerado defeituoso, imperfeito e incapaz. Deficiente físico será sua performatividade. Porém se toda sua sociedade não tiver braços sua performatividade será a da perfeição.

E assim, a tudo se aplica.

No entanto, como apontado anteriormente, essas definições sobre o que você é (que não são você intimamente) são estabelecidas no mundo, pelo mundo. Públicas. Políticas.

Todas as definições a seu respeito variam conforme a época, o lugar, a sociedade nos quais você está inserido.

Peraí, mas a mulher e o homem sempre existiram, antes de serem chamados assim.

O que sempre existiu foram o ser com pênis, o ser com vagina, o ser com pênis e vagina, o ser sem pênis ou vagina, o ser com pênis e útero, o ser com vagina sem útero, e diversas outras possibilidades que não foram descritas porque não foram aceitas.

Em certo momento o ser com pênis foi chamado homem e o sem pênis foi chamado de desvio da natureza.

Depois, chamaram o ser com pênis de homem e o sem pênis de mulher.

Aí, então, chamaram o ser com vagina de mulher, o ser com pênis de homem, e todas outras variáveis foram chamadas de desvios da natureza.

E assim caminhou a humanidade, chamando e deschamando os seres.

O importante nesse processo todo é compreender que as designações que você recebe não determinam o que você é. Você não precisa delas para existir, você apenas existe.

O que essas designações importam é em como você vai se relacionar com os outros.

É aí que você se torna Política.

Ao perceber que seu íntimo, o que você é (para além dos nomes), não está ameaçado por essas designações, não será modificado por elas, você pode parar de sentir medo. Ninguém pode modificar sua alma, nem dizer como ela é ou não é, porque a alma é inominável. Até o termo “alma” não dá conta do que ela é (inclusive o verbo “ser” perde o sentido aqui).

Mais ainda: você pode se desidentificar desses rótulos e usá-los, reconhecê-los como ficções políticas (linguagem) criadas para a sua relação com o mundo.

É fundamental você tomar consciência de que a forma como se apresenta ao mundo, sua performatividade, é uma escolha.

Sua escolha?

Aí depende da sociedade em que você está inserido. Para cada organização social essa escolha será mais ou menos definida pela polis. O que torna essa escolha uma questão política.

Mas se essa escolha da sua performatividade é mais definida por você ou pela sociedade, ainda assim essa escolha é pública e não privada.

De novo. O fato de sua expressão no mundo ser uma escolha sua não torna essa escolha privada, no sentido que venho empregando. Não é porque foi você que escolheu que ela é privada. Essa é a distinção que pretendo fazer. Ela não é privada, apesar de ser uma escolha pessoal, porque o objeto da escolha (sua performatividade) é um fato público, uma ficção política (conforme tudo que sustentei anteriormente).

Se a organização social for mais definida por um poder centralizado, mais ditatorial, sua performatividade será restrita a um conjunto de normas externas a sua vontade (sua vontade não é o que você é, já afirmei).

Se for uma sociedade mais igualitária, democrática, sua vontade individual será menos normatizada. Em ambos os casos o fato é público e, portanto, político.

Seu ato político está muito mais implicado na sua vida pessoal do que querem que você perceba.
Você acredita que sua participação na vida pública, na vida coletiva, está restrita ao que acontece fora da sua casa, fora do seu corpo, fora das suas escolhas pessoais (o que te ensinaram a chamar de privado), mas esse é o seu engano. E esse engano está servindo para que o poder estabelecido imponha as normas que afetam sua casa, seu corpo e suas escolhas pessoais, porque são públicas.

Pra que todo esse blablablá?

Pra dizer que sua cor, seu gênero, seu sexo, suas roupas, sua profissão, sua idade, seus defeitos e suas qualidades, sua orientação sexual, sua classe social, seu nome, seus comportamentos, seus pensamentos, suas escolhas ou sua vontade NÃO SÃO VOCÊ.

São construções, são denominações, são ficções políticas.

E por isso não existem?

Ah, sim, existem e muito. Mas podem ser alteradas, modificadas, sem que você deixe de ser quem ou o que você é.

Portanto, pare de confundir o que você é com sua performatividade no mundo!

E passe a reconhecer que sua performatividade no mundo é um ato político.

Você é Política.

Quando nos reconhecermos como Política, não precisaremos mais dos políticos, pois seremos nossa própria representatividade.

Assim é se lhe parece.

(texto originalmente publicado na revista virtual Lingua de Trapo)


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A PESTE BRANCA

Nessa era globalizada e com a crescente rede de informações, é inaceitável que pessoas continuem chafurdadas na ignorância. E por ignorância eu quero dizer o conhecimento PARCIAL de fatos e reflexões. Torna-se ignorante aquele que, mesmo tendo conhecimento profundo sobre uma matéria, conhece-a apenas a partir do mesmo ponto de vista!

Todos nós temos obrigação social de conhecer detalhadamente a história da humanidade.

E por história não estou me referindo às mentiras ou verdades parciais contadas nos livros didáticos, replicadas nas escolas formadoras de pessoas preconceituosas e desinformadas sobre a horrorosa história que vimos construindo nesse planeta.

De todas as mentiras repetidas há séculos, vamos tratar das construções criadas, por diversos poderes, sobre as diferenças raciais.

Embora o racismo entre povos seja antigo, no período das grandes navegações, invasões e conquistas de novas terras, o racismo atingiu seu ápice em horror e tragédia.

O mundo eurocêntrico, com seu pensamento mercantilista, dotado de força armamentista crescente, tecnologia e com doentia ambição pelo máximo controle sobre outros povos, invadiu centenas de terras estrangeiras e exterminou milhares de pessoas. Eu não disse guerreou, eu disse exterminou.

Seus vetores destrutivos tinham por um lado a vontade de exterminar todas as culturas que não estivessem submetidas ao padrão civilizatório por ele mesmo estabelecido e por outro a vontade de submeter seres humanos aos seus interesses.

O pensamento eurocêntrico, egocêntrico, entendia (e ainda entende) que sua forma de vida e civilização era a melhor e única forma decente, avançada e coerente a ser experimentada por todos os seres humanos. Ainda há quem concorde!!

Todas as culturas, tecnologias, sabedorias, práticas religiosas, culinárias, expressões artísticas, organizações sociais que não tivessem origem no pensamento eurocêntrico foram consideradas atrasadas, demonizadas, primitivas, selvagens e até animalescas.

O objetivo na desmoralização dessas outras culturas era escravizar seres humanos.

A escravatura não é apenas uma expressão da maldade humana, um exercício de crueldade desinteressado, é também uma eficiente forma de enriquecer sem fazer esforço. Estou falando de riqueza material obviamente, já que é um empobrecimento espiritual sem precedentes.

Os povos eurocêntricos, que a partir de agora vou chamar de “brancos”, fizeram uma varredura genocida por todos os pedaços de terra que conseguiram alcançar.

Isso não é suposição, não é julgamento, é apenas realidade histórica.

Só na época mercantilista, os brancos exterminaram, direta ou indiretamente, mais gente que em todas as guerras em todos os tempos. Civilizações inteiras foram minuciosamente eliminadas.

(Se estiver achando exagero, releia o primeiro parágrafo.)

Documentos históricos e pesquisas modernas nos revelam que toda a história moderna foi escrita e contada a partir de um único ponto de vista: o do branco.

Todas as outras experiências de vida, relatos, provas, filosofias foram eliminados ou obscurecidos, desde a Idade Antiga, com o intuito de fazer prevalecer uma única perspectiva histórica.

Para efetivar essa empreitada de demolição das verdadeiras histórias vivenciadas pelos seres humanos, para fazer valer esse projeto de poder, vários setores do conhecimento humano se uniram no mesmo objetivo.

O papel da Igreja Católica foi dar a principal base filosófica para esse projeto, chegando a afirmar que os povos não brancos eram destituídos de alma, embora outras linhas da filosofia também acrescentassem a essa vertente racista.

Toda uma narrativa mítica e um vocabulário foram sendo formatados para distinguir qualidades humanas e criar o mais pernicioso instrumento de dominação entre povos: o preconceito. Embora essa construção já viesse sendo elaborada desde o nascimento do mundo ocidental, na Grécia, foi a Igreja Católica que conseguiu consolidar popularmente os cânones do que seria o homem bom e mal, sadio e doentio, superior e inferior.

Outro importante consolidador dos instrumentos de dominação foi a Ciência.

Desde a Idade Média até os tempos de hoje, a Ciência, supostamente atestadora da realidade indiscutível, detentora da verdade comprovada, criou todas as bases para o que hoje conhecemos como racismo.

Diversos estudos e postulados foram desenvolvidos para comprovar o que Deus, ou a Natureza, não criou: as raças.

O termo raça foi cunhado por Lineu no século XVII e referia-se à classificação de diferentes populações de uma mesma espécie biológica. Até então as distinções entre grupos humanos davam-se em torno de conceitos etnocêntricos, pois eram pautados em questões culturais, e não de “raça”.
No século XIX, o Conde de Gobineau escreveu o “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas”, trazendo à tona a ideia das diferenças e hierarquização raciais. Ideia que, apesar de obtusa, difundiu-se. Alguns apoiaram-se equivocadamente em Darwin e sua teoria da evolução das espécies para consolidar o racismo.

Antes do século XIX, considera-se que predominava uma visão etnocentrista e não racial.

Hoje, com os estudos da nova física, conseguimos compreender que nem mesmo um cientista está isento de sua moralidade para observar a realidade. Se antes se entendia que esse profissional era o único capaz de observar a realidade com isenção, sem interesses e total objetividade, hoje se sabe que essa capacidade é impossível. Não existe uma realidade totalmente objetiva apreensível pelo ser humano.

Sendo assim, embora as descobertas científicas tenham melhorado significativamente nossa vida no planeta, inúmeros estudos dessa natureza serviram apenas para fortalecer o poder do branco sobre todos os não brancos.

Todas as bases do racismo sobre diversos povos, ao cúmulo da formulação do pensamento eugênico, foram formuladas pela ciência.

Essas duas frentes de construção da realidade foram terrível e sabidamente aproveitadas, financiadas e incentivadas pelo poder político e econômico.

O antigo mercantilismo e o nascente capitalismo aproveitaram essa formatação mental e afetiva que veio sendo lapidada.

A introjeção seja de postulados religiosos ou de postulados científicos insuflou a pior forma de subjugação entre seres humanos: o racismo.

E este projeto de poder foi tão bem executado que, mesmo hoje tendo sido destruída a teoria das raças, e sendo questionada a teoria das etnias, há uma imensa população que perpetua esses conceitos e suas consequentes atrocidades.

O problema é de tamanha profundidade que seres humanos são capazes de torturas físicas, emocionais e psicológicas contra outros seres humanos, baseadas em teses falaciosas, conflitos esses eficientemente aproveitados pelo poder econômico e político.

Muitos povos foram chamados de “negros” ao longo da história, sempre de forma pejorativa contra os grupos dominados e para sustentar essa dominação, mesmo quando não haviam brancos no poder estabelecido.

Porém, com a consolidação do poder eurocêntrico e a instituição do conceito de raça branca, negra e amarela, foram os povos do continente africano que receberam esse título, e toda sua carga conceitual, e até hoje são assim designados. Conhecidos como “negros”, termo supostamente justificado pela cor escura da pele, os povos afrodescendentes são o grupo humano que permaneceu escravizado por mais tempo, e em maior número, na história da humanidade.

Enquanto os amarelos foram deixados de lado pelos interesses de dominação, brancos impuseram aos negros, agora exclusivamente afrodescendentes, um rompimento histórico e definitivo.

Apesar das mais recentes pesquisas apontarem o nascimento da humanidade no continente africano, não só genética, mas culturalmente, o preconceito de brancos contra negros não diminui e se perpetua. Esse preconceito levou o nome de racismo.

Repetindo: racismo é o todo o processo histórico de dominação, extermínio e subjugação do branco sobre o negro (existem outras formas de racismo na história, mas sempre apoiadas nesse mesmo processo de dominação. Qualquer forma de discriminação, por exemplo, de negros contra brancos não é chamada de racismo porque não está baseada num processo histórico de dominação, sendo chamada de preconceito. Ou seja, preconceito é uma discriminação pontual e racismo é uma discriminação processual, histórica).

Teorias antigas e absurdas, como a que indicava que negros eram descendentes do cruzamento entre mulheres brancas e macacos (não fui eu quem inventou essa aberração teórica), continuam como base central do racismo em pleno século 21, que impõe outras formas de escravagismo, menos explícitas.

 (Pausa para refletir sobre há quanto tempo essa tortura se perpetua.)

Felizmente e com o custo de muito sangue, os negros vieram traçando um caminho de recuperação de sua identidade cultural. Essa luta sofrida, hoje chamada de empoderamento, colaborou e colabora (junto a outras minorias) na construção dos atuais entendimentos de democracia. A democracia não é uma estrutura criada pelo poder, mas sim uma forma de organização social conquistada pela luta de minorias, sendo a população negra muito importante no amadurecimento desse projeto de organização humana.

Conquistas civis, legais e sociais vêm sendo ampliadas a muito custo, já que o racismo ainda é violentamente presente no comportamento humano.

Finalmente, chegamos ao objetivo desse texto: fazer entender a importância de eliminar o branco, entendido como o vetor de opressão racial.

O que estou sugerindo é o extermínio da população eurodescendente? Obviamente não.

Muitas foram as teses acerca da inferioridade dos negros, dos índios, dos aborígenes, enfim, dos não brancos.

E quais são as teses sobre a inferioridade branca?

Já temos estatísticas suficientes para concluir que há uma doença no gene da branquitude, uma deficiência, ou não?

Enquanto os brancos chamavam os negros de animais, eram eles que assim se comportavam, no pior sentido da expressão. Das focas mortas a pauladas para vender bibelôs de madame, ao estudante negro e homossexual morto à paulada no campus da sua universidade, principalmente o branco heteronormativo vem matando feito um anômalo. Para ele, fora ele, o resto é bicho.

Apenas por vontade de imposição de seus desejos mesquinhos, os brancos europeus aniquilaram culturas, etnias, tecnologias e pessoas aos milhões. Sem exageros, foram mortas milhões de pessoas.
As expedições colonialistas traçaram caminhos de destruição que modificariam a história do planeta para sempre. Mudaram nosso futuro.

Como estaríamos vivendo se todos os povos que foram dizimados não o tivessem sido? Como estaríamos vivendo se não tivesse havido uma violenta imposição da civilização eurocêntrica e sim um compartilhamento de sabedorias entre as diversas culturas?

É muito provável que não estivéssemos a um passo de nossa autodestruição, da destruição da única raça que realmente existe: a raça humana.

Algo, na chamada raça branca, funcionou como uma doença obsessiva, A PESTE BRANCA, e intensificou no ser humano o que ele tem de pior.

Os brancos ficaram cegos, surdos e obsessivos pelo controle do Universo.

De que cor mesmo é o deus cristão?

Branco.

(Jesus, ao longo dos anos, passou pelo mesmo processo que Michael Jackson para clareamento de pele… até ficar branco de olhos azuis, coisa que Michael não conseguiu!)

Por mais que os brancos se esforcem para colocar no negro a imagem de bandido mau-caráter, é a história que está dando cor branca aos piores humanos em todos os tempos.

É estruturado nesse racismo construído que o capitalismo floresce e perpetua suas condutas em novas vestes.

Acho que já passou da hora de estudarmos essa PESTE BRANCA em vez de ficarmos gastando tempo tentando provar que os não brancos não são inferiores.

Se por um lado os negros vão e devem continuar lutando por um sistema de igualdade e respeito, luta essa que deve ser integralmente apoiada por brancos, por outro lado há muito o que fazer para desconstruir o racismo.

A desconstrução do racismo não é uma atitude dos negros (a eles cabe o empoderamento da sua cultura), mas dos brancos, pois é neles que se perpetua essa doença contagiosa.

Não basta apoiar a “causa negra”, que é o mínimo que qualquer ser humano decente deve fazer, mas é imprescindível lutar contra o racismo dentro de si mesmo e no ambiente.

E quando falo de lutar contra o racismo insisto que não basta defender um negro que esteja sendo violentado (faça isso sempre), apoiar políticos e políticas de direitos para negros (sem dar pitaco!), mas reconhecer os privilégios raciais impregnados no cotidiano do branco.

O racismo só vai acabar (tenho fé que consigamos chegar a esse objetivo) quando o branco deixar de ser branco.

Portanto, o que pretendo é me dirigir ao branco, que vive privilégios raciais, para que enfrente a si mesmo e que lute por essa ideia: VAMOS ACABAR COM A PESTE BRANCA que se perpetua em nós!!!


(texto originalmente escrito para a revista virtual LINGUA DE TRAPO : publicação original)